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O paradoxo do rearme europeu – aumento de defesa em meio a incertezas

Paradoxo europeu da rearmament: países que mais desconfiam de Washington menos dispostos a armar-se, enquanto a ameaça leste impulsiona proteção coletiva

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Por Revisado por: Luiz Cesar Pimentel
Germany's Chancellor Friedrich Merz, Italy’s Prime Minister Giorgia Meloni, Spain's Prime Minister Pedro Sanchez, Poland's Prime Minister Donald Tusk, France's President Emmanuel Macron, and Britain's Prime Minister Keir Starmer.
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  • A paradoxa europeia da rearmament mostra que quem mais desconfia dos Estados Unidos é justamente quem menos quer investir em defesa europeia; quem acredita que a OTAN pode ser salvável é quem mais investe.
  • Em novembro de 2025, apenas 16% dos europeus avaliavam os EUA como aliado, frente a 20% que veem antagonismo; na Alemanha, França e Espanha, a parcela que considera os EUA adversário chega a quase 30%.
  • Itália informa déficit de confiança: gasto com defesa foi 1,54% do PIB em 2024; pretende chegar a 2,0% em 2025, 2,5% em 2028 e 3,5% em 2035, mas oposição pública e uso de “escape clauses” levantam dúvidas.
  • França avança com autonomia estratégica sob a liderança de Emmanuel Macron, aumentando o orçamento de defesa (de 32 bilhões de euros em 2017 para 47 bilhões em 2024; promessa de 64 bilhões até 2027), apesar de instabilidade political.
  • Países da Europa Central e de leste fortalecem a dissuasão em relação a Rússia (Polônia: 4,7% do PIB; Baltos: 5%; Estonia planeja mais de 10 bilhões de euros entre 2026 e 2029), tornando-se, paradoxalmente, os mais pró-EUA.

Na Europa, um paradoxo militar preocupa especialistas: diante da fragilidade percebida da proteção dos EUA, espera-se que quem teme mais o adversário busque defesa autônoma. O efeito, porém, é o oposto. Quem mais apoia o rearmamento europeu é quem ainda acredita que a OTAN pode ser salvaguardada.

Dados de 2025 mostram esse desencontro: apenas 16% dos europeus veem os EUA como aliado, contra 22% oito meses antes. Cerca de 20% enxergam os EUA como rival ou adversário, com picos próximos de 30% na Alemanha, França e Espanha. Ainda assim, o apetite por autonomia não cresce.

Itália ilustra o formato do paradoxo. O país reconhece a inconstância dos EUA, mas mantém uma tradição pacifista local que dificulta entender a deterrência. Em 2024, o gasto militar ficou em 1,54% do PIB, abaixo da meta de 2%. Atingir 2% em 2025 foi, segundo fontes, em parte contábil.

A França complica o cenário. O governo de Macron defende autonomia estratégica há anos e elevou o orçamento de defesa de 32 bilhões para 47 bilhões de euros, chegando a 2,06% do PIB em 2024. Contudo, a fragilidade política interna limita avanços reais.

As eleições de 2027 na França mantém o quadro incerto. Candidatos de diferentes espectros defendem direção mista entre autonomia e alianças, com resistência de partidos que contestam custos e compromissos de defesa europeia. O debate é mais populacional que econômico neste momento.

Na prática, a busca por autossuficiência enfrenta obstáculos: dependência nuclear de França e Reino Unido, e uma indústria europeia menor que a dos EUA. Além disso, muitos componentes críticos vêm de fornecedores dos EUA, reforçando o peso estratégico de Washington.

O eixo leste da OTAN revela outra lógica. Países como Polônia e estados bálticos investem acima de 4% a 5% do PIB em defesa, com planos ambiciosos de reforçar capacidades. Esses países continuam entre os mais pró-EUA, vendo a Rússia como ameaça imediata.

Frente a isso, o bloco sul-europeu tende a ver riscos difusos — migração, terrorismo, coerção econômica — tornando o rearmamento caro e menos desejável politicamente. A percepção de ameaça não é a mesma que motiva a expansão de forças convencionais.

Em relação à Alemanha, surgem sinais de mudança. Um pacote histórico de defesa pode ser financiado com apoio parlamentar, aliado a investimentos em infraestrutura. Mesmo assim, governos do sul temem que benefícios fiscais e econômicos se concentrem no norte.

Grupos de esquerda e de direita na Europa ajudam a explicar o bloqueio. A esquerda antiamericana muitas vezes contesta gastos militares, enquanto a direita nacionalista busca soberania nacional sem compromissos europeus de defesa integrada.

No front europeu, a relação com a Rússia continua definindo escolhas. A posição de alguns movimentos é ambivalente: apoio à defesa, porém ceticismo quanto à participação em missões estrangeiras ou ao envio de armamentos de longo alcance.

Enquanto esse cenário persiste, há quem espere melhoria nas relações transatlânticas com a saída de figuras como Donald Trump. Pesquisas indicam expectativa de retorno da cooperação, mas esse otimismo pode ser uma forma de negação de riscos estruturais.

O dilema central permanece: o apoio à autossuficiência depende da crença de que a defesa europeia, de fato, pode substituir a proteção de Washington. Enquanto não houver disposição de financiar e sustentar essa mudança, o paradoxo tende a perdurar.

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