- A paradoxa europeia da rearmament mostra que quem mais desconfia dos Estados Unidos é justamente quem menos quer investir em defesa europeia; quem acredita que a OTAN pode ser salvável é quem mais investe.
- Em novembro de 2025, apenas 16% dos europeus avaliavam os EUA como aliado, frente a 20% que veem antagonismo; na Alemanha, França e Espanha, a parcela que considera os EUA adversário chega a quase 30%.
- Itália informa déficit de confiança: gasto com defesa foi 1,54% do PIB em 2024; pretende chegar a 2,0% em 2025, 2,5% em 2028 e 3,5% em 2035, mas oposição pública e uso de “escape clauses” levantam dúvidas.
- França avança com autonomia estratégica sob a liderança de Emmanuel Macron, aumentando o orçamento de defesa (de 32 bilhões de euros em 2017 para 47 bilhões em 2024; promessa de 64 bilhões até 2027), apesar de instabilidade political.
- Países da Europa Central e de leste fortalecem a dissuasão em relação a Rússia (Polônia: 4,7% do PIB; Baltos: 5%; Estonia planeja mais de 10 bilhões de euros entre 2026 e 2029), tornando-se, paradoxalmente, os mais pró-EUA.
Na Europa, um paradoxo militar preocupa especialistas: diante da fragilidade percebida da proteção dos EUA, espera-se que quem teme mais o adversário busque defesa autônoma. O efeito, porém, é o oposto. Quem mais apoia o rearmamento europeu é quem ainda acredita que a OTAN pode ser salvaguardada.
Dados de 2025 mostram esse desencontro: apenas 16% dos europeus veem os EUA como aliado, contra 22% oito meses antes. Cerca de 20% enxergam os EUA como rival ou adversário, com picos próximos de 30% na Alemanha, França e Espanha. Ainda assim, o apetite por autonomia não cresce.
Itália ilustra o formato do paradoxo. O país reconhece a inconstância dos EUA, mas mantém uma tradição pacifista local que dificulta entender a deterrência. Em 2024, o gasto militar ficou em 1,54% do PIB, abaixo da meta de 2%. Atingir 2% em 2025 foi, segundo fontes, em parte contábil.
A França complica o cenário. O governo de Macron defende autonomia estratégica há anos e elevou o orçamento de defesa de 32 bilhões para 47 bilhões de euros, chegando a 2,06% do PIB em 2024. Contudo, a fragilidade política interna limita avanços reais.
As eleições de 2027 na França mantém o quadro incerto. Candidatos de diferentes espectros defendem direção mista entre autonomia e alianças, com resistência de partidos que contestam custos e compromissos de defesa europeia. O debate é mais populacional que econômico neste momento.
Na prática, a busca por autossuficiência enfrenta obstáculos: dependência nuclear de França e Reino Unido, e uma indústria europeia menor que a dos EUA. Além disso, muitos componentes críticos vêm de fornecedores dos EUA, reforçando o peso estratégico de Washington.
O eixo leste da OTAN revela outra lógica. Países como Polônia e estados bálticos investem acima de 4% a 5% do PIB em defesa, com planos ambiciosos de reforçar capacidades. Esses países continuam entre os mais pró-EUA, vendo a Rússia como ameaça imediata.
Frente a isso, o bloco sul-europeu tende a ver riscos difusos — migração, terrorismo, coerção econômica — tornando o rearmamento caro e menos desejável politicamente. A percepção de ameaça não é a mesma que motiva a expansão de forças convencionais.
Em relação à Alemanha, surgem sinais de mudança. Um pacote histórico de defesa pode ser financiado com apoio parlamentar, aliado a investimentos em infraestrutura. Mesmo assim, governos do sul temem que benefícios fiscais e econômicos se concentrem no norte.
Grupos de esquerda e de direita na Europa ajudam a explicar o bloqueio. A esquerda antiamericana muitas vezes contesta gastos militares, enquanto a direita nacionalista busca soberania nacional sem compromissos europeus de defesa integrada.
No front europeu, a relação com a Rússia continua definindo escolhas. A posição de alguns movimentos é ambivalente: apoio à defesa, porém ceticismo quanto à participação em missões estrangeiras ou ao envio de armamentos de longo alcance.
Enquanto esse cenário persiste, há quem espere melhoria nas relações transatlânticas com a saída de figuras como Donald Trump. Pesquisas indicam expectativa de retorno da cooperação, mas esse otimismo pode ser uma forma de negação de riscos estruturais.
O dilema central permanece: o apoio à autossuficiência depende da crença de que a defesa europeia, de fato, pode substituir a proteção de Washington. Enquanto não houver disposição de financiar e sustentar essa mudança, o paradoxo tende a perdurar.
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