- Em 17 de março, o advogado russo Ilya Remeslo publicou um manifesto criticando Vladimir Putin, dizendo que o país vive uma guerra sem saída; em menos de 48 horas, ele foi encaminhado a um hospital psiquiátrico.
- O governo intensificou o bloqueio à internet e prepara a proibição do Telegram, afirmando que é necessário controlar a comunicação durante a guerra.
- As medidas incluem quedas diárias de internet em Moscou e em São Petersburgo, além de planos para lançar uma plataforma estatal única, o MAX, e de dificultar o uso de redes privadas virtuais.
- Protestos de produtores no Sibéria contra abates de gado em meio a uma crise sanitária não comprovada destacam o desgaste do regime e a pressão popular.
- O aparato de propaganda do Kremlin começa a falhar, com apoiadores famosos sendo questionados e até silenciados, revelando fissuras entre a narrativa oficial e a realidade no terreno.
O advogado russo Ilya Remeslo, 42 anos, publicou no dia 17 de março um manifesto dirigido a seus 90 mil seguidores no Telegram, defendendo que Vladimir Putin deve renunciar e ser levado a julgamento como criminoso de guerra. O texto, intitulado Five reasons why I stopped supporting Vladimir Putin, acusa o presidente de travar uma guerra sem saída que trouxe milhões de mortes, devastou a economia e sufocou a oposição interna. Remeslo também critica o controle da internet e a decisão de banir o Telegram, considerada por ele como parte do bloqueio de um espaço vital de comunicação.
Dentro de 48 horas, Remeslo foi encaminhado para uma unidade psiquiátrica. As circunstâncias de sua internação não estão claras, mas a imprensa pró-Kremlin informou que houve encaminhamento involuntário. Um apresentador de televisão conservador de grande audiência comentou o episódio sem citar o nome do jurista, minimizando a gravidade da crítica.
O episódio de Remeslo ganha relevância mesmo diante de críticas já elevadas ao governo. Organizações de imprensa independentes fuera do país, após anos de oposição ao conflito, já enxergavam falhas na condução da guerra. Ainda que existam setores ultranacionalistas que questionam a estratégia de Putin, a visão de derrota não é incomum entre apoiadores ardorosos. O que difere Remeslo é a afirmação direta de que o líder político é o responsável pela derrota.
Remeslo tem destaque por ter contribuído para a área jurídica que levou a oposição Alexei Navalny a uma prisão remota, onde acabou falecendo. Sua mudança de posição, de executor de censura a crítico aberto, gera uma leitura sobre como o aparato de repressão funciona hoje. A ironia é que a internação ocorreu em contexto de repressão histórica, lembrando práticas de censura associadas a regimes autoritários do passado.
Além do seu gesto, a esteira de eventos aponta para uma crise mais ampla do poder: há meses que a ofensiva na Ucrânia estagna e o governo intensifica esforços para controlar a comunicação online. Em paralelo, o país enfrenta a maior repressão de internet de sua história, com queda de serviços móveis, gargalos com Telegram e movimentos para implementar um sistema único, MAX, que uniria mensagens, serviços públicos e pagamentos, sob controle estatal.
As ações de contenção vão além das plataformas de mensagens. Em várias regiões, intervenções estatais reduziram o uso de redes móveis, com interrupções que atingem Moscou, São Petersburgo e outras cidades. O objetivo declarado é impedir o uso de redes para orientar ataques, embora haja dúvidas sobre a eficácia prática dessas medidas. O impacto se estende a trabalhadores, empresas e usuários comuns, que relatam prejuízos em atividades diárias e operações comerciais.
Em meio a esse cenário, surgem protestos e críticas a políticas de controle digital. Regiões como Novo Siberisk registraram conflitos entre manifestantes e autoridades, ligados a medidas de manejo de uma crise de saúde veterinária que envolve abate de animais. A situação expõe tensões entre política de guerra, repressão interna e impactos econômicos sobre a população rural.
As mudanças sinalizam uma transformação na forma como o Kremlin encara a oposição e a mobilização social. A máquina de propaganda já enfrentava dilemas com a queda de confiança e desinformação, e agora passa a enfrentar cortes diretos na infraestrutura de comunicação que sustenta o apoio público. A narrativa oficial, que antes suplantava a realidade, parece encontrar freios em várias frentes.
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