- Charles Kushner, representante de Donald Trump na França, chegou em Paris sem aprender francês e desengajado das normas da burocracia local, gerando distúrbios na diplomacia.
- Em menos de meses, ele escreveu uma carta aberta ao presidente Emmanuel Macron acusando a França de não enfrentar suficientemente o antisemitismo, o que causou críticas em Paris.
- Kushner foi chamado ao Ministério das Relações Exteriores, mas não compareceu, e passou a ser informado de que não poderia se reunir com autoridades do governo após o episódio.
- De acordo com fontes, ele demonstrou desejo de não atrapalhar o debate público e deve se encontrar com o ministro dos negócios estrangeiros em breve.
- Autoridades francesas e norte-americanas reconhecem que a proximidade de Kushner com o governo dos EUA é vista como um ponto positivo por parte de Washington, mas o relacionamento entre Paris e a embaixada permanece tenso em temas como comércio, soberania europeia e regulação digital.
Charles Kushner, indicado pelo governo de Donald Trump para chefiar a embaixada dos EUA em Paris, voltou a pautar as relações entre Washington e Paris desde sua chegada na capital francesa no ano passado. O embaixador, de 71 anos, acumula críticas na França por atitudes consideradas incompatíveis com a diplomacia tradicional e por não dominar o francês. A forma de atuação é vista como parte de uma nova linha de diplomacia centrada nos interesses de uma maior assertividade norte-americana na região.
Desde a sua posse, Kushner gerou atritos com a diplomacia francesa ao publicar uma carta aberta ao presidente Emmanuel Macron, criticando o combate ao antissemitismo no país. A reação em Paris foi de cautela, com autoridades classificando a abordagem como inadequada para um representante diplomático. O episódio intensificou a percepção de que a relação bilateral atravessa um momento de tensão.
Na sequência, Kushner foi alvo de convocação do Ministério das Relações Exteriores da França após tuítes republicados pela embaixada dos EUA localizados em X, relacionados a um episódio de violência envolvendo um ativista de extremos-direita. O embaixador não compareceu à reunião, o que levou a um aviso de que estaria impedido de se reunir com autoridades governamentais. A previsão é de que um encontro com o ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, ocorra nos próximos dias, segundo fontes próximas ao chanceler.
Contexto e desdobramentos
Alguns observadores franceses veem no que ocorreu um embate de poder entre Kushner e a diplomacia francesa, marcado pela defesa de um combate firme a antissemitismo. Segundo analistas, a função de um embaixador é representar o país anfitrião com decoro, sem incitar debates públicos. A situação revela um desgaste nas relações entre Paris e a equipe de Trump, que envolve questões de comércio, soberania digital e liberdade de expressão.
Para fontes próximas dos dois países, Kushner não atua movido por símbolos da legenda MAGA, mas por uma preocupação com antissemitismo, o que reforça seu foco temático. Entre aliados, o embaixador mantém contatos estratégicos com assessores que falam francês e entendem a dinâmica política local. A comunicação com Macron segue, em termos formais, via canais oficiais, com a Casa Branca usando o cargo para defender sua linha de atuação.
Julen Jeanneney, especialista em direito público, aponta que publicações diplomáticas não devem ditar o diálogo entre nações. Segundo ele, a recusa em atender à convocação é visto como sinal de resistência institucional. O episódio, ainda, evidencia a tensão entre uma diplomacia que busca ações diretas e um governo que valoriza protocolos tradicionais.
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