- Médica psiquiatra em Melbourne, Dr. Hemlata Ranga, recusou atender novos pacientes que não autorizem o uso de transcrição por IA durante as consultas.
- Em formulário de registro, pacientes são informados de que, se não concordarem com a IA, deverão ser encaminhados por seu médico referenciador a outro prestador de serviço.
- O uso de scribes baseados em IA está aumentando na área médica, com duas em cada cinco médicos de atenção primária já utilizando a ferramenta, segundo o RACGP.
- Há preocupações sobre segurança de dados, privacidade e precisão das transcrições, levantadas por especialistas e pacientes, incluindo relatos de objeção à prática.
- A clínica Melbourne Clinic disse que não orienta médicos sobre o uso de IA, mas que, quando utilizado, há consentimento prévio; se o paciente não consentir, a IA não é usada.
Um psicólogo em Melbourne tem recusado novos pacientes que não concordem com o uso de um transcritor por IA para registrar as conversas das sessões. Em formulário de cadastro, a exigência aparece explícita, com orientação de que quem não desejar AI deverá ser encaminhado a outro prestador.
O uso de ferramentas de anotação por IA tem ganhado espaço na medicina. Dados da Royal Australian College of General Practitioners indicam que 40% dos médicos de família já recorrem a esse tipo de recurso. No entanto, surgem dúvidas sobre segurança de dados, uso pelas empresas de IA e precisão das transcrições.
Em registro publicado pelo Guardian Australia, a psiquiatra Hemlata Ranga descreve a condição no formulário: a paciente consente com a transcrição via IA para apoiar a preparação de notas, cartas clínicas, relatórios e outros documentos. Caso não haja consentimento, a paciente deve pedir que o médico referenciador a encaminhe a outro serviço.
A paciente que preferiu permanecer anônima relatou objeção ao uso de IA durante as sessões. A pessoa afirma que a formulação do documento soou defensiva e questiona se há desejo de forçar a adoção do recurso. Encontrar um psiquiatra não é comparável a uma visita a uma farmácia, disse, acrescentando que a prática de Ranga, segundo ela, é difícil de substituir.
O consultório de Ranga fica na Melbourne Clinic, em Richmond. A profissional não respondeu a pedidos de comentário. Em nota, a Melbourne Clinic afirmou que não orienta clínicos sobre o uso de IA, mas que muitos psicólogos incorporam a tecnologia para reduzir a carga administrativa. Quando há consentimento, o uso é informado aos pacientes e pode ser utilizado apenas com autorização.
A agência de IA Heidi AI é citada como uma das opções mais utilizadas, com milhões de sessões processadas. O cofundador de Heidi AI em Melbourne, Dr. Tom Kelly, afirmou que os dados são processados no país do paciente, não são usados para treinar a IA nem vendidos, e que são realizadas auditorias para garantir segurança. Ainda assim, médicos devem revisar as transcrições.
Riscos, regulamentação e perspectivas
Tom Sulston, chefe de política da Digital Rights Watch, ressalta que a transcrição por IA pode apresentar falhas, com histórico de treinamento dominante em usuários brancos, homens e falantes de inglês, o que aumenta erros para outros grupos. Ele aponta risco real de violação de dados médicos e de que pacientes podem se autocensurar, especialmente em áreas com estigma social, como saúde sexual ou mental.
Segundo ele, o objetivo da IA não é melhorar resultados ou a experiência do paciente, mas reduzir custos administrativos. Nessa dinâmica, pacientes acabam virando produto, não cliente. Grupos de consumidores da RACGP levantam preocupações sobre consentimento e desequilíbrio de poder entre médicos e pacientes.
Questionamentos sobre regulamentação ganham força por parte de especialistas, que pedem salvaguardas legais para que pacientes possam recusar sistemas de IA sem prejudicar o acesso aos cuidados. A posição é de que a confidencialidade e a qualidade das notas devem ser preservadas, com validação humana contínua.
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