- Em 2025, o desemprego ficou em 5,6% e a renda média real avançou 5,7%, mas 79,5% das famílias estavam endividadas; a inadimplência no cartão de crédito rotativo fechou o ano em 64,7% e os juros chegaram a 438% ao ano em dezembro.
- A dívida das famílias, excluindo crédito habitacional, alcançou 31,3% da renda em 12 meses; o serviço da dívida atingiu 29,3%, e o cartão respondeu por 85,1% do endividamento total em dezembro.
- O crédito disponível, voltado ao consumo, elevou a inadimplência e o custo financeiro; o microcrédito produtivo orientado manteve-se marginal, com casos de inclusão de trabalhadores informais e microempreendedores.
- Dois exemplos ilustram o cenário: Nilson Madruga, em Videira (Santa Catarina), e Solice Moroni, em Farroupilha (Rio Grande do Sul), recorreram ao microcrédito orientado após perderem ativos e terem dificuldade de acesso a bancos tradicionais.
- Em 2025, a Abcred movimentou 1,9 bilhão de reais em operações de microcrédito, com 188 mil contratos; a demanda real, segundo líderes do setor, seria dez vezes maior, apontando a necessidade de ampliar o crédito produtivo e reduzir o peso do crédito de consumo.
O microcrédito produtivo orientado surge como uma resposta a um cenário de endividamento elevado no Brasil, enquanto a taxa de desemprego fica entre as mais baixas da história. Em 2025, o desemprego ficou em 5,6%, e a renda média real subiu 5,7%, mas 79,5% das famílias estavam endividadas. O cartão rotativo fechou o ano com 64,7% de inadimplência e juros de 438% ao ano, quase 30 vezes a Selic.
Mesmo com números positivos no mercado de trabalho, a estrutura de crédito favorece o consumo imediato. A parcela da dívida das famílias excluindo crédito habitacional atingiu 31,3% da renda em 12 meses, e o serviço da dívida respondeu por 29,3% desse comprometimento. Em dezembro, o cartão de crédito concentrou 85,1% do endividamento total, aponta a CNC.
O crédito disponível ficou mais acessível graças à digitalização financeira e às fintechs entre 2020 e 2025, mas o perfil de quem chega pouco muda. Trabalhadores informais, microempreendedores e famílias com renda menor recebem produtos voltados ao consumo e com taxa que embute inadimplência como custo. Em 2024, o conjunto de crédito avançou 11,5%, com destaque para cartão e crédito pessoal; o microcrédito produtivo orientado permaneceu marginal.
Nilson Madruga, empreendedor de Videira (SC), viveu dificuldades extremas após perder perto de 1,6 milhão em ativos. Sem score, dormiu em seu carro por meses e só conseguiu atendimento possível ao buscar o Banco da Família, que aceitou a moto usada como garantia para o crédito. O crédito orientado foi determinante para retomar as atividades, segundo ele.
Em Farroupilha (RS), Solice Moroni e a irmã Clarice recorreram ao microcrédito após perdas na safra e endividamento decorrente de insumos. A segunda vez, com o CPF sujo, também resultou no acesso ao microcrédito orientado. O caso ilustra a vulnerabilidade enfrentada por produtores e trabalhadores com pouca garantia.
A modalidade movimentou 1,9 bilhão de reais em 2025, segundo a Abcred, com 188 mil contratos. Ainda assim, o volume representa uma fração da carteira total, que passou de 18 trilhões no início de 2026. O universo de microempreendedores chegou a 27,9 milhões em 2025, aponta a PNAD Contínua.
A presidente da Abcred, Isabel Baggio, afirma que o crédito orientado precisaria crescer cerca de dez vezes para acompanhar a demanda. Ela aponta que, hoje, a lacuna é preenchida pelo crédito de consumo predatório, que compromete parte da renda do trabalhador. O debate no setor envolve renegociação de dívidas e mudança estrutural na oferta de crédito, com maior espaço para modalidades produtivas.
O Banco Central já reconhece o risco de diante de comprometer até 30% da renda familiar. Embora a limitação de juros do rotativo, vigente desde 2024, não tenha reduzido a inadimplência, a reincidência entre negativados permanece alta, com 83% dos inadimplentes repetindo a situação. Nesse contexto, o microcrédito orientado é visto como instrumento para reduzir o peso do consumo de alto custo na vida das famílias.
Casos individuais mostram como o crédito orientado pode representar uma via de recuperação para quem não encontra portas abertas nos bancos tradicionais. Madruga, hoje, financia um furgão de mais de 100 mil reais pelo banco que aceitou sua moto antiga como garantia; ele afirma que seu atual compromisso é com a instituição financeira, não com credores anteriores. Moroni também aponta que o acesso ao microcrédito ajudou a manter a produção mesmo diante de dificuldades.
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