- Desaceleração da economia argentina coloca à prova a âncora fiscal de Milei, com o superávit público sob pressão.
- A arrecadação de impostos não acompanha a inflação há sete meses; fevereiro registrou queda real de 10% (ajustada pela inflação), com o imposto sobre vendas destacando a fraca receita.
- A economia permanece desigual: setores como agricultura, energia e mineração puxam o crescimento, enquanto manufatura, construção, turismo e varejo sofrem com menor consumo.
- Cortes de gastos já realizados, como subsídios a energia e transporte, tornam novos ajustes politicamente e socialmente custosos, elevando o desafio fiscal.
- A popularidade de Milei caiu para 36,4% em março; analistas veem risco de perder a âncora fiscal neste ano, com possível necessidade de reinterpretar políticas fiscais e monetárias diante da arrecadação fraca.
Austeridade de Milei enfrenta teste com desaceleração econômica e menor arrecadação. O país avalia se o superávit fiscal, uma pedra angular do governo desde dezembro de 2023, consegue resistir à queda da atividade e da receita pública. A dúvida surge a 18 meses da próxima eleição presidencial.
Bloomberg descreve sinais de fragilidade nas contas argentinas, com a arrecadação tributária abaixo da inflação por sete meses seguidos. Em fevereiro, houve queda real de 10% na arrecadação, conforme dados do Instituto Argentino de Análisis Fiscal. O principal entrave é a estagnação de setores-chave.
A queda na participação de vendas internas e alfandegárias explica boa parte da menor arrecadação, segundo o Banco Mariva. O desemprego também pesa sobre as contribuições para a Previdência Social. O governo já admite a possibilidade de receitas extraordinárias, mas sinaliza que cortes adicionais podem ocorrer.
Fatores fiscais e políticos
Em 2026, Milei promove medidas controversas, como redução de subsídios a energia e transporte, elevando contas de luz e custos de deslocamento. Cortes de gasto mais simples, como obras públicas e empregos públicos, já foram realizados, tornando novos cortes mais impopulares.
A taxa de aprovação de Milei caiu para 36,4% em março, segundo levantamento da Latam Pulse para a Bloomberg News. Analistas consideram possível que a âncora fiscal sofra ajustes, apesar de manterem certa credibilidade fiscal. A percepção é de que déficits moderados podem ser aceitáveis para evitar choques sociais.
Cenário econômico setorial
A economia ainda cresce, mas com desigualdade acentuada. Setores como agricultura, energia e mineração impulsionam o crescimento, enquanto manufatura, construção, turismo e varejo ressentem a desaceleração do consumo e a valorização da moeda. A deterioração afecta a política monetária.
Desde março, o Banco Central flexibilizou a política cambial, permitindo expansão mais rápida do peso e redução de juros, o que aumenta a necessidade de fôlego para uma economia mais frágil. Analistas apontam que a recuperação da arrecadação fica sob pressão.
Olhando para o futuro
Especialistas destacam que, se março repetir o padrão, Milei terá de decidir entre defender a âncora fiscal a qualquer custo ou reavaliá-la diante da realidade econômica. A expectativa de superávit primário de 16,1 trilhões de pesos para este ano permanece sob escrutínio.
O orçamento de 2026 partiu da premissa de crescimento da receita para sustentar o superávit primário de aproximadamente 1,5% do PIB. Agora, projeções parecem menos confortáveis, elevando dúvidas sobre o ritmo do ajuste fiscal. O tema permanece central no debate público argentino.
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