- No Uruguai, uma lacuna regulatória na comercialização de material de propagação levou Santiago Navratil a criar a Genetics Biobanking, banco genético de cannabis.
- A empresa foi a primeira a obter licença do Instituto de Regulación y Control de Cannabis para vender material de propagação, após quase três anos de preparo com genéticas, geneticistas de diversos países e planejamento regulatório.
- Hoje, a Genetics concentra cerca de setenta e cinco por cento dos registros genéticos do Uruguai, mantém quinze variedades ativas e pode produzir até quatro mil clones por mês, com foco na qualidade para contratos de longo prazo.
- O modelo da empresa é vender informação genética — não plantas nem produtos como flores ou óleos — com rastreabilidade molecular ligada ao DNA de cada planta.
- Há planos de exportar para o Brasil, iniciando projetos de pesquisa em oncologia pediátrica, e buscar transformar o Uruguai num hub/genética regional, com visão de criar uma denominação de origem para a cannabis uruguaia.
A Genetics Biobanking nasceu para preencher uma lacuna regulatória no Uruguai, onde a cannabis é legal, mas ainda faltava um mecanismo claro para comercializar material de propagação. Santiago Navratil transformou a percepção de que o setor médico exigia genética estável, rastreável e legal.
Navratil não vem do agro tradicional. Formado em Comércio Exterior, atuou em tecnologia e contratos na América do Sul. Em 2014, com a lei da cannabis já aprovada, ele deixou o emprego, estudou biotecnologia e iniciou a busca por um modelo que articulasse norma, produto e mercado.
O problema era estrutural: sem norma para comercializar propagação, o ecossistema canábico uruguaio operava de forma informal. Doações de clubes e genéticas sem rastreabilidade impediam investimentos estáveis e parcerias de longo prazo, segundo o fundador.
Uma empresa de cannabis que não vende cannabis
A Genetics Biobanking funciona como banco genético. Seu foco é registrar e disponibilizar informação genética para replicação padronizada, segura e legal. Sementes, clones e cultivos são o suporte físico para ativos genéticos rastreáveis.
A empresa foi a primeira a obter licença do IRCCA para comercializar material de propagação, uma figura inédita no país. O processo durou quase três anos, com mapeamento de genéticas e construção de infraestrutura regulatória.
Hoje, Navratil afirma que a Genetics detém cerca de 75% dos registros genéticos do Uruguai. O país contava com dez antes da atuação da empresa e chegou a cinquenta genéticas registradas, com quarenta adicionadas no último ano.
Escala, rastreabilidade e diferenciação
O diferencial está no registro e na cadeia produtiva controlada. Cada planta recebe uma assinatura de DNA que permite rastreabilidade molecular, verificação de perfil de fitocanabinoides e conformidade sanitária internacional.
A produção mensal alcança até 4 mil clones. A operação fica em El Pinar, Ciudad de la Costa, com investimento inicial próximo de US$ 600 mil e equipes entre 10 e 20 pessoas, conforme a demanda.
O foco é qualidade, não preço, o que abriu portas ao segmento medicinal, com contratos de longo prazo e maior exigência regulatória.
Brasil, o próximo salto
A expansão fica fora do Uruguai, com a primeira exportação de propagação para o Brasil. O projeto envolve pesquisa aplicada em oncologia pediátrica, marcado como estágio inicial da internacionalização.
Para Navratil, o mercado brasileiro representa o verdadeiro ponto de inflexão, por sua escala. Plantas funcionam como um pendrive: a informação genética é o ativo, multiplicável no Brasil para produção em larga escala.
Visão de longo prazo
Além do negócio, há a ambição de tornar o Uruguai um hub genético regional, com possível denominação de origem para a cannabis uruguaia. A ideia é associar valor à planta pelo lugar onde é desenvolvida, semelhante a vinhos.
O projeto tem financiamento próprio até o momento. Passos futuros incluem conversas com fundos de investimento, com o contexto regulatório internacional favorável e a reclassificação da cannabis nos EUA.
Navratil mantém o foco em estruturar um mercado que nasceu desalinhado, buscando segurança jurídica e evolução do ecossistema canábico com base em dados confiáveis.
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