- Entre 2005 e 2025, cientistas geraram mil duzentos e seis camundongos clonados a partir de uma única fêmea, usando a transferência nuclear, com o estudo publicado na Nature Communications.
- Até a 25ª geração, os clones foram saudáveis; a partir da 27ª geração começaram a aparecer problemas, e na 57ª apenas 2,2% dos embriões transferidos nasceram vivos, com falhas adicionais na 58ª geração.
- A cada geração, o genoma acumula, em média, setenta mutações pontuais e cerca de 1,5 alterações estruturais maiores, levando à perda de cromossomos e inativação de genes essenciais.
- Em cruzamentos sexuais, houve queda na fertilidade nas gerações tardias, mas o tamanho das ninhadas aumentou novamente quando a descendência voltou a cruzar-se de forma natural, sugerindo que a reprodução sexual dilui mutações prejudiciais.
- A conclusão é que repetir clonagem por muitas gerações degrada o material genético; uma opção sugerida é armazenar células do animal original para clonagens futuras, já utilizada em alguns programas de pesquisa e conservação.
Foi publicado um estudo japonês que aponta um limite prático para a clonagem de mamíferos após 20 anos de pesquisa. Entre 2005 e 2025, pesquisadores produziram 1.206 camundongos clonados a partir de uma única fêmea doadora, usando transferência nuclear.
A cada geração, o núcleo de uma célula somática foi inserido em um óvulo sem núcleo para gerar o próximo clone. A primeira parte da linhagem ocorreu sem sinais de problema, com camundongos saudáveis e fertilidade semelhante à de pares não clonados.
A partir da 27ª geração, surgiram falhas: a eficiência de clonagem caiu e mutações se acumularam. Na 57ª geração, apenas 2,2% dos embriões transferidos resultaram em filhotes vivos; na 58ª, os nascidos morreram poucos dias depois.
Dinâmica genética e mutações acumuladas
Análises genéticas revelaram que o problema não era a expressão gênica, mas a estrutura do material genético herdado. Em média, cada nova geração acumula cerca de 70 mutações pontuais e 1,5 alterações estruturais maiores.
Com o tempo, ocorreram perdas de cromossomos, reorganizações incorretas de grandes trechos de DNA e inativação de genes essenciais. Na 57ª geração, dezenas de genes já apresentavam perda de função total ou mutações que alteravam proteínas.
Em estágios avançados, muitos clones presentes tinham aparência normal, embora o DNA carregasse impactos significativos. Em movimentos de seleção natural ainda no útero, embriões com mutações mais graves não sobreviviam à gestação.
Reprodução sexual como fator de diluição de mutações
Quando clones de gerações avançadas foram cruzados com camundongos normais, houve queda na fertilidade, com ninhos de 2 a 3 filhotes em gerações tardias, contra cerca de 10 anteriormente. O efeito não foi permanente; descendentes dos cruzamentos, ao se reproduzirem novamente entre si, mostraram retorno ao tamanho usual das ninhadas.
Essa dinâmica sugere que a reprodução sexuada ajuda a diluir mutações prejudiciais ao embaralhar o DNA de dois indivíduos, amenizando o acúmulo observado na clonagem repetida.
Conclusões, aplicações e caminho futuro
Os pesquisadores destacam que a clonagem continua útil para conservar traços desejáveis, como resistência ou produtividade, mas repetidas gerações degradam o material genético. Uma alternativa apontada é armazenar células do animal original e usá-las diretamente para novas clonagens, evitando a transmissão de mutações acumuladas.
As descobertas corroboram a ideia de catraca de Muller em mamíferos, mostrando, pela primeira vez, esse efeito de mutações acumuladas em clonagem repetida. Ainda não há método eficaz para superar esse limite por meio da transferência nuclear.
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