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Polilaminina: lições sobre apressar a ciência na busca por cura

Polilaminina começa fase um; lições da fosfoetanolamina alertam para cautela entre divulgação e método científico

Imagem, em close up, de uma mão usando luva cirúrgica, segurando um frasco de vidro de Laminina.
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  • A fosfoetanolamina, proposta como “pílula do câncer” na USP de São Carlos, foi distribuída gratuitamente a pacientes sem comprovação em pesquisas pré-clínicas, gerando controvérsia entre 2000 e 2010.
  • Em 2014, a Universidade proibiu a distribuição sem autorização da Anvisa, o que levou a ações judiciais de pacientes; a imprensa acompanhou o caso.
  • Em 2017, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo divulgou resultados de um ensaio clínico com a fosfoetanolamina, interrompido por falta de sinais de melhora.
  • O caso serviu de paralelo para a polilaminina, embora não haja relação entre as moléculas; a pesquisadora Tatiana Sampaio lidera estudos que ainda não oferecem resultados definitivos.
  • Atualmente, a polilaminina passa por fases de avaliação, com autorização da Anvisa para a fase 1 (cinco participantes) e expectativa de fases futuras para verificar segurança e eficácia.

A história da fosfoetanolamina, conhecida como a suposta pílula do câncer, ilustra como a paixão pela descoberta pode se perder no caminho da ciência. Em São Carlos, na USP, o químico Gilberto Chierice sintetizou a molécula na década de 1990 e abriu caminho para distribuí-la gratuitamente. A ideia era estimular o sistema imune a combater tumores, sem ainda haver testes pré-clínicos.

A distribuição informal ganhou força no início dos anos 2000, com centenas de pacientes indo ao Instituto de Química da USP para receberem as pílulas. Houve relatos de orientações para não fazer quimioterapia, sob a premissa de que a fosfo poderia funcionar apenas se o sistema imunológico estivesse intacto.

Contexto histórico

Em 2014, a universidade proibiu a distribuição sem autorização da Anvisa. Pacientes e familiares entraram com ações na Justiça para manter o acesso, enquanto veículos de imprensa amplificavam a pauta. O episódio ganhou grande repercussão nacional.

Em 2016, houve aprovação de uma lei no Congresso que pretendia liberar a produção sem aval da Anvisa. Dilma Rousseff sancionou. O STF derrubou a norma pouco tempo depois, mas o episódio deixou marcas sobre a avaliação regulatória de tratamentos experimentais.

Lições para a ciência

Ensaios laboratoriais mostraram que as pílulas tinham poucas quantidades de fosfoetanolamina e muitas impurezas. O episódio evidenciou riscos da disseminação de tratamentos sem base sólida em evidências e sem desenho de estudo adequado.

Em 2017, o Icesp publicou resultados de um ensaio clínico com a fosfoetanolamina. O estudo foi interrompido por falta de sinais de benefício, justificando a não continuidade da pesquisa com voluntários. A molécula não mostrou eficácia.

Atual paralelismo com a polilaminina

Agora surge a polilaminina, liderada pela pesquisadora Tatiana Sampaio, da UFRJ. A equipe não distribui o composto nem promete cura. O foco é testar a hipótese de que a molécula estimula o crescimento de axônios para recuperação motora após lesão na medula.

O composto já passou por testes em animais e em células humanas. O único estudo com humanos envolveu oito participantes, com resultados inconclusivos e ainda sem validação em periódico científico. A Anvisa autorizou a fase 1 com cinco voluntários.

Caminhos futuros

Especialistas ressaltam que estudos-piloto ajudam a refinar hipóteses, não fornecer respostas definitivas. A partir da fase 1, seguem-se as fases 2 e 3, com maior número de pacientes e controle de evidência. Será essencial desenho adequado e ética rigorosa.

A comunicação entre ciência, mídia e sociedade continua desafiadora. Mesmo com atraso institucional, é fundamental manter o método científico como base. A dúvida persistente exige paciência e avaliação criteriosa dos dados.

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