- Estudo mostra que a microbiota do jardim de fungo das saúvas-limão varia conforme a dieta, assim como ocorre na microbiota humana.
- Foram 28 colônias divididas em quatro grupos alimentares ao longo de 56 dias: folhas; frutas e cereais; folhas e frutas/cereais alternadas; e apenas folhas seguidas de frutas/cereais.
- Dietas distintas favoreceram diferentes microrganismos no jardim: folhas aumentaram Bacillus e Weissella; frutas e cereais, Carnimonas e Mesoplasma; dietas alternadas geraram composição intermediária.
- Dieta baseada apenas em frutas e cereais levou à morte de algumas colônias e ao colapso do experimento, com alterações no fungo e na cor do jardim.
- Pesquisa, publicada na NPJ Biofilms and Microbiomes, utilizou técnicas como ressonância magnética pela primeira vez nesse contexto e resultou num protocolo para estudar microbiotas de insetos.
A pesquisa mostra que a microbiota das saúvas-limão muda conforme a alimentação. A estudiosa Mariana de Oliveira Barcoto avaliou como diferentes dietas afetam o jardim de fungos nas colônias, núcleo da alimentação dessas formigas. O estudo foi realizado no Instituto de Biociências da Unesp, em Rio Claro, com orientação do professor André Rodrigues.
Durante o doutorado, Mariana desenvolveu um protocolo para investigar a relação entre dieta, fungo cultivado e microbiota do jardim. O trabalho integra biologia celular, molecular e microbiologia, com apoio de uma equipe multidisciplinar.
O estudo, publicado na revista NPJ Biofilms and Microbiomes, usa quatro dietas distintas para 28 colônias. O período experimental durou 56 dias, com coletas a cada 20 dias para analisar o jardim das formigas.
Mudanças na composição do fungo
As saúvas-limão formam jardins que combinam fungo cultivado, bactérias e enzimas, funcionando como um digestivo externo. A dieta influencia quais microrganismos proliferam no jardim, impactando a saúde da colônia e a digestão coletiva.
A dieta apenas com folhas favoreceu bactérias como Bacillus e Weissella. Já a base de frutas e cereais aumentou Carnimonas e Mesoplasma, associadas a alimentos de digestão mais rápida.
Resultados e limitações
Dietas intercaladas geraram uma composição intermediária, com presença de bactérias de ambos os grupos. Mesmo assim, a microbiota não retorna à configuração inicial após mudanças alimentares.
A dieta exclusiva de frutas e cereais mostrou efeitos adversos: várias colônias deixaram de forragear, o fungo alterou aparência e, em alguns casos, houve morte de integrantes. O experimento foi interrompido aos 56 dias para evitar o colapso.
O pesquisador afirma que leveduras se proliferaram com a dieta frutífera, possivelmente inibindo microrganismos necessários à digestão. Ainda não havia previsão de que a alimentação seria tão prejudicial, revelou Mariana.
Metodologia e colaboradores
O grupo contou com Odair Correa Bueno, que forneceu as colônias e orientou os cuidados; o físico Eduardo Ribeiro de Azevedo, da USP, aplicou ressonância magnética para analisar o jardim; e o biólogo Lucas William Mendes contribuiu com análises genéticas.
Ao final, foram geradas 192 amostras de sequências de DNA e 64 amostras de ressonância magnética. A equipe destaca que a interdisciplinaridade foi essencial para avançar o estudo de um sistema biológico ainda pouco explorado.
Perspectivas futuras
Os autores defendem que o protocolo pode ser aplicado a outros insetos e animais, ampliando o estudo das microbiotas em diferentes condições ambientais. A pesquisa sugere caminhos para entender impactos de mudanças climáticas e uso do solo na alimentação animal.
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