- Ana Carolina Figueira desenvolve miniórgãos em laboratório (órgãos-em-chip) para testar substâncias sem uso de animais.
- O sistema usa células humanas em compartimentos interligados por canais, simulando o funcionamento de órgãos como fígado e pele.
- O objetivo é prever toxicidade de produtos e acelerar pesquisas, substituindo parcialmente testes em animais.
- A pesquisadora coordena o grupo no CNPEM, em Campinas, e já realiza validação do método, com repetições em diferentes laboratórios.
- Ela foi reconhecida recentemente entre 25 cientistas premiadas na América Latina pelo Prêmio 25 Mulheres na Ciência, da 3M.
Ana Carolina Figueira desenvolve mini-órgãos em laboratório para testar substâncias sem uso de animais. A ideia é prever toxicidade de químicos com modelos mais próximos do funcionamento humano, reduzindo a necessidade de testes em animais.
Nascida em Ourinhos, interior de São Paulo, Carol cresceu em escola pública e vivenciou práticas de ciência quase artesanais. A curiosidade nasceu ao ver um destilador caseiro em uma aula de química, que a marcou profundamente.
No ensino superior, optou pela UFSCar em São Carlos para estudar Ciências Biológicas, buscando ampliar o alcance da pesquisa. Logo no primeiro ano já ingressou em iniciação científica na área de bioquímica.
Os primeiros passos
Cem dias após a entrada na graduação, entrou para um laboratório, mas uma greve interrompeu as atividades. Procurou outra oportunidade e acabou no Instituto de Física da USP, também em São Carlos, onde estudou proteínas com ferramentas da física.
Entre bolsas e pesquisas, decidiu seguir direto para o doutorado na mesma instituição, uma opção ainda rara para mulheres na época. Focou em receptores hormonais, como estrógeno, para entender processos como crescimento e metabolismo.
Depois do doutorado, realizou pós-doutorado nos Estados Unidos, no Hospital Metodista de Houston, em colaboração com a Universidade de Houston. Ao retornar ao Brasil, entrou para o CNPEM, em Campinas, para estudar proteínas em um novo patamar.
Métodos alternativos
A partir daí nasceu o interesse por órgãos inteiros, em vez de apenas tecidos. O grupo passou a desenvolver órgãos-em-chip, dispositivos transparentes que mantêm células humanas organizadas para imitar funções de órgãos reais.
Atualmente Carol coordena pesquisas nessa linha, com foco em substituir, ao menos parcialmente, testes em animais. Os modelos simulam vias de circulação de substâncias entre compartimentos que representam pele, fígado e outras etapas do organismo.
O dispositivo funciona com canais que conectam os compartimentos e um líquido que imita o sangue. Assim, é possível observar, em escala reduzida, se uma substância atravessa barreiras e se há danos celulares.
Essa tecnologia tem aplicações em desenvolvimento de medicamentos, avaliação de toxicidade e testes de cosméticos e alimentos. No Brasil, a legislação já proíbe testes cosméticos em animais, aumentando a demanda por métodos alternativos.
O grupo já construiu protótipos funcionais, incluindo uma versão de fígado integrada a pele, e está na etapa de validação entre laboratórios para confirmar reprodutibilidade dos resultados.
Reconhecimento e próximos passos
A pesquisadora vê o progresso como parte de um processo longo, com avanços graduais. O objetivo é que o método seja reconhecido pela indústria após validação robusta, tornando-se mais presente na prática científica.
O reconhecimento chegou em 2025, quando Carol foi premiada entre 25 cientistas latino-americanas pelo Prêmio 25 Mulheres na Ciência, da 3M. A indicação reforça a visibilidade de pesquisas com impacto social e tecnológico.
Em entrevistas, Carol incentiva jovens mulheres a seguir ciência com persistência. Ela ressalta a importância de aprender, errar e manter a curiosidade, mantendo o foco em contribuições concretas para o país.
Nem sempre foi fácil dominar um campo ainda dominado por homens, mas a pesquisadora acredita na mudança gradual e na necessidade de tornar visíveis mulheres que atuam na ciência. A trajetória, segundo ela, inspira novas gerações.
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