- A pesquisadora Carolini Kaid desenvolveu uma versão modificada do vírus Zika em laboratório para atacar tumores cerebrais pediátricos, com resultados que mostraram destruição de células tumorais em testes de laboratório.
- A ideia é transformar o vírus em um vetor viral capaz de entregar terapias ao cérebro, mantendo a capacidade de invadir células desejadas e, ao mesmo tempo, evitar causar doença.
- A tecnologia está em fase pré-clínica: não há testes em pacientes ainda, e o principal desafio é produzir o vírus em escala, com controle de qualidade e aprovação da Anvisa.
- Kaid criou startups para levar a pesquisa adiante, enfrentando um cenário competitivo e, segundo ela, machista, ao buscar levar a tecnologia até o sistema público de saúde.
- Além do câncer, há projetos para usar o vetor na entrega de genes terapêuticos, incluindo uma abordagem para o autismo causada por mutações no gene Shank3.
Carolini Kaid, pesquisadora brasileira, desenvolveu uma versão modificada do vírus Zika em laboratório para avaliar seu uso contra tumores cerebrais pediátricos. O trabalho abriu caminho para entender se o vírus pode agir como vetor terapêutico.
A trajetória começou no Instituto de Biociências da USP, onde Carol foi mestra em transformar problemas em pesquisas. O foco sempre foram tumores com células-tronco e progenitores neurais, que explicam a agressividade da doença.
Em 2015, durante a epidemia de Zika no Brasil, a pesquisadora testou se o vírus poderia atacar células cerebrais em desenvolvimento. Observou que progenitores neurais eram o alvo preferencial do Zika.
Os experimentos mostraram que, em vitro, o Zika poderia eliminar células tumorais sem afetar controles não infectados. A descoberta foi publicada na revista Cancer Research e rendeu o Prêmio Capes de Melhor Tese em 2020.
A partir daí, a pesquisa avançou para a ideia de tornar o vírus seguro para uso em humanos. O desafio foi transformar o Zika em um vírus sintético, mantendo a capacidade de atingir o cérebro sem causar doença.
Da bancada ao laboratório avançado
A pesquisadora desmontou o código do vírus como quem monta um Lego, retirando componentes danosos e preservando a entrada nas células cerebrais. O resultado foi um vetor viral capaz de entregar conteúdos terapêuticos.
Com esse vetor, é possível que o vírus carregue genes terapêuticos ou tratamentos para regressar defeitos genéticos. Em estudo, o foco é aplicar a tecnologia também em autismo causado por mutações no gene Shank3.
Apesar de avanços promissores, a tecnologia permanece na fase pré-clínica. Ainda não há testes em pacientes, nem regulamentação para uso clínico, nem ensaios clínicos iniciados.
A produção em escala e a aprovação pela Anvisa são obstáculos centrais para avançar. A pesquisa depende de infraestrutura industrial e rigorosos padrões de qualidade.
Caminho rumo à aplicação e oportunidades
Carolini deixou o ambiente universitário para empreender. Ela fundou startups para levar a tecnologia a hospitais e ao sistema público, enfrentando cenários corporativos complexos.
O objetivo é tornar a primeira tecnologia brasileira dessa natureza disponível no Brasil e, eventualmente, no mundo. A equipe já trabalha em versões sintéticas do vírus para uso terapêutico.
A pesquisa foi reconhecida em programas de promoção da ciência liderados por grandes empresas, destacando o papel de mulheres na indústria. A iniciativa reforça a busca por inovação tecnológica brasileira.
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