- A Lancet pediu a um grupo de especialistas internacionais que proponha a criação de uma nova categoria chamada “autismo profundo” para pessoas com maiores necessidades.
- Critério: autistas com pouca ou nenhuma linguagem, QI abaixo de 50 e necessidade de supervisão 24 horas; vale apenas para crianças a partir de oito anos.
- Estudo australiano avaliou 513 crianças autistas atendidas em serviços públicos entre 2019 e 2024; cerca de 24% atenderiam ou estariam em risco de atender aos critérios.
- Quase metade apresentou comportamentos de risco de segurança (ex.: fugir de cuidadores); ainda assim, muitos que não atingem o critério também tinham necessidades significativas.
- Principais preocupações: a idade de oito anos dificulta a implementação prática e pode exigir reavaliações, além de haver descompasso entre o critério e os níveis de suporte financeiro; o objetivo é orientar políticas, serviços e pesquisas, sem reduzir a individualidade de cada criança.
A categoria de “autismo profundo” está sendo avaliada por especialistas para uso em diagnósticos públicos. O tema surgiu após a Lancet convidar um grupo internacional de especialistas para propor esse novo rótulo. A ideia é identificar pessoas com necessidades de atendimento elevadas e orientar políticas.
Segundo o estudo, a definição abriga indivíduos com pouca ou nenhuma linguagem, IQ abaixo de 50 e suporte 24 horas por dia. A proposta seria aplicada apenas a crianças a partir de oito anos, quando as habilidades variam menos com o tempo.
A pesquisa utilizou dados de 513 crianças autistas avaliadas entre 2019 e 2024, no contexto de serviços públicos de diagnóstico na Austrália. O objetivo foi verificar quem atenderia aos critérios e se haveria características comportamentais distintas.
Resultado principal: cerca de 24% das crianças autistas atendidas ou em risco de atender aos critérios seriam enquadradas como autismo profundo. Esse percentual é próximo ao observado em estudos internacionais.
Quase metade das crianças apresentava comportamentos de risco à segurança, como tentativa de fuga, em comparação com 31,2% de outros autistas. Além disso, 22,5% autistas demonstraram autoagressão e 38,2% apresentaram agressão a terceiros.
Apesar do mapeamento, houve desencontros entre a definição e os níveis de suporte existentes no sistema de financiamento. Alguns casos de alto risco não se enquadraram no nível 3, que determina maior auxílio, por exemplo.
Preocupações principais dizem respeito à idade de referência e à correspondência entre critérios clínicos e critérios de financiamento. A equipe ressalta que muitos pacientes já são avaliados antes dos oito anos.
Entre os impactos práticos, o estudo aponta a necessidade de ajustar diretrizes, evitar repetições de avaliação e adaptar a definição para apoiar políticas públicas sem excluir quem não se encaixa no rótulo.
O que vem a seguir envolve possíveis alterações em diretrizes clínicas nacionais, a fim de facilitar planejamento de serviços, pesquisa e recursos para pessoas com maior necessidade de suporte.
Quem acompanha o tema pode considerar a importância de informações claras para famílias e profissionais. Em paralelo, recomenda-se que cuidadores documentem comportamentos de risco e impactos no cotidiano para embasar solicitações de suporte.
Sobre pesquisadores, o grupo inclui Kelsie Boulton, da Brain and Mind Centre da University of Sydney, além de Maríe Antoinette Hodge e Rebecca Sutherland, da mesma instituição. O artigo original foi publicado no The Conversation.
Fonte: estudo australiano sobre a categoria de autismo profundo, com dados da Child Neurodevelopment Registry, envolvendo crianças atendidas em serviços públicos de diagnóstico.
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