- A Península Antártica, região mais quente do continente, está recebendo chuva com mais frequência, sinal de mudanças previstas para a costa da Antártica nos próximos decades.
- Com temperaturas acima de zero cada vez mais comuns, a precipitação tende a ocorrer mais como chuva do que como neve, alterando a dinâmica dos glaciares e acelerando o desprendimento de icebergs.
- A água de degelo pode umedecer o leito dos glaciares, lubricando bases e aumentando o deslizamento; em plataformas de gelo flutuantes, a chuva gera lagoas que ajudam a derreter o gelo até o oceano.
- O gelo marinho fica mais vulnerável, reduzindo a cobertura de neve, acelerando o derretimento e afetando habitat de pinguins, krill e algas, além de prejudicar a proteção natural das geleiras contra ondas oceânicas.
- Além dos impactos ecológicos, a chuva mais frequente pode exigir adaptações na infraestrutura de pesquisa e ameaçar locais históricos e assentamentos humanos na região.
A chuva começa a ganhar espaço na Península Antártica, região mais aquecida do continente. Pesquisadores registram aumento da precipitação em forma de chuva, em vez de neve, com o aquecimento mais intenso do que a média global. O estudo analisa cenários de emissões altas, médias e baixas. O objetivo é entender como o clima muda neste século.
A pesquisa, liderada pela professora de glaciologia Bethan Davies, da Universidade de Newcastle, aponta que a chuva pode derreter neve, lubrificar o leito dos glaciares e acelerar o desprendimento de icebergs. O trabalho foi publicado originalmente no The Conversation.
Essa mudança já se vê na prática. Eventos climáticos extremos e rios atmosféricos trazem chuva à Península, onde antes havia pouca precipitação no formato líquido. Em 2020 houve uma onda de calor que levou temperaturas acima de 18°C no norte da região.
A atuação da chuva sobre a neve altera o equilíbrio do ice shelf e da superfície de gelo. Ao derreter, a água pode infiltrar e reduzir o peso que sustenta o gelo, aumentando a probabilidade de ruptura de plataformas flutuantes.
Em plataformas de gelo flutuantes, a água de degelo forma poças e lagoas, que absorvem mais calor e aceleram o derretimento. Esse processo já esteve ligado aos desfechos de Larsen A e B no início dos anos 2000.
O gelo marinho também sofre. A menor cobertura de neve reduz a refletividade, favorece o aquecimento e pode diminuir o habitat de algas, krill e outras espécies, influenciando redes alimentares da região.
Ecossistemas sob pressão se tornam mais vulneráveis. Pinguins podem enfrentar condições de nidificação mais expostas à chuva, e filhotes podem ficar sujeitos à hipotermia. Espécies estreitamente ligadas ao gelo podem perder espaço.
Além disso, o aquecimento promove mudanças em escala regional. Espécies menos adaptadas podem recuar, enquanto outras, como pinguins gentoo, podem avançar para áreas até então cobertas pelo gelo.
Desafios para a pesquisa e para a infraestrutura também aumentam. Baseamentos e pistas de pouso, pensados para neve, enfrentam dificuldades com a chuva. Construções e equipamentos podem exigir redesign e manutenção mais frequente.
Locais históricos na Península, com cabanas e instalações antigas, também correm risco. O degelo do permafrost pode comprometer estruturas de madeira e fundações, exigindo cuidado extra em um território de acesso remoto e logística complexa.
Os resultados indicam que, mesmo com esforços para limitar o aquecimento global, mudanças climáticas rápidas podem intensificar chuvas, derretimento de superfície e impactos ecológicos. Reduzir o aquecimento abaixo de 1,5°C pode retardar esse ritmo.
Entre na conversa da comunidade