- Em fevereiro de 2016, a usina Belo Monte entrou em operação comercial no rio Xingu, desviando o curso do Volta Grande do Xingu e reduzindo o fluxo na região.
- Relatórios do grupo de monitoramento independente MATI mostraram, ainda em 2016, peixes malnutridos nas margens; em 2025, nota técnica aponta deformidades visíveis em dourado-platina (silver croaker) com corpos arredondados e sinais na coluna.
- Sara Rodrigues Lima, moradora local, documenta deformidades desde 2021 e estima que parte relevante da pesca é afetada; pesquisas laboratoriais indicam deformidades em larvas de tambaqui em condições ideais.
- Causas discutidas incluem deficiência nutricional, alterações no ambiente aquático (água quente, oxigênio) e possível contaminação por mercúrio; o sistema de fluxo reduzido (Reduced Flow Stretch) não teria reproduzido o pulso natural de cheia, mesmo sob hidrograma de consenso.
- Há propostas de substituir o hidrograma atual por um Piracema Hydrograph, com pico de 14.000 m³/s, para reestabelecer a reprodução, enquanto a empresa Norte Energia sustenta que a operação segue normas e monitora impactos, negando relação direta com deformidades.
O impacto da usina Belo Monte, instalada no Xingu, na região conhecida como Volta Grande do Xingu, voltou a ganhar contornos de evidência prática após quase uma década de operação. Em 2016, quando a usina entrou em funcionamento, pescadores e pesquisadores já haviam observado sinais de deformidades em peixes, associando-os à alteração drástica do pulso fluvial. Hoje, novos relatos de deformidades em dourados-do-porto, o silver croaker, indicam mudanças físicas que podem refletir alterações no habitat e na cadeia alimentar local.
A fiscalização independente, coordenada pela equipe MATI em parceria com membros do Ministério Público Federal, aponta que cerca de 70% do caudal natural do Xingu foi redirecionado para o sistema de reservatórios e canais da Belo Monte. Esse desvio reduziu o fluxo na região de Volta Grande, afetando habitats de rapids e igapós, essenciais para a reprodução de diversas espécies. Pesquisadores associam as alterações com deficiências nutricionais, oxigenação reduzida e possível contaminação por metais, incluindo mercúrio.
Ao longo de 2021 a 2025, moradores ribeirinhos e pescadoras, como Sara Rodrigues Lima, documentaram deformidades em peixes locais e um aumento na frequência de anomalias. A pesquisadora aponta que quatro de cada dez peixes capturados apresentam algum tipo de deformidade, embora os dados ainda precisem de verificação adicional. Estudos laboratoriais com tambaqui indicam deformações em estágios larvais sob condições de calor extremo e maior CO2 atmosférico.
Causas e hipóteses em estudo
Especialistas do INPA destacam que a deterioração do hábitat aquático provocado pela operação da Belo Monte pode contribuir para o aumento de deformidades. Entre as hipóteses estão deficiências nutricionais pela mudança na alimentação da fauna aquática, maior estagnação de água com menor oxigenação e possível contaminação por mercúrio. Pesquisas em andamento avaliam a relação entre temperatura, qualidade da água e desenvolvimento embrionário de peixes.
Profissionais da UFPA, em parceria com Norte Energia, registraram deformidades em estudos de 2023, cujos resultados foram integrados a relatórios oficiais. A parceria gerou tensões entre a universidade e a operadora, e contratos de monitoramento não foram renovados desde fevereiro de 2025, alimentando questionamentos sobre transparência dos dados.
Regime de fluxo e consequências ecológicas
O regimes de vazão mínimos definidos pelo CH, adotados pela concessionária, não alcançam a fluidez natural do Rio Xingu. Em 2022 houve redução de cerca de 82% na área alagável de igapós. Anos subsequentes tiveram micropadrões de vazão ainda abaixo de metas, com impactos visíveis na vegetação dos sarobais e na sazonalidade de peixes que dependem de períodos de inundação para reprodução.
Comunidades locais relatam variações abruptas no nível da água, conhecidas como flood-ebb, provocando estresse adicional aos organismos aquáticos. A matriz de monitoramento aponta que grande parte da energia gerada pela Belo Monte atende a demandas em centros urbanos do Sudeste, com alterações frequentes de operação que acentuam oscilações de nível nos cursos d’água.
Posicionamentos oficiais e caminhos futuros
A Norte Energia sustenta que o projeto busca respeitar a sazonalidade do rio, destacando que variações naturais históricas já ocorreram e que a operação segue autorizações vigentes. A empresa afirma manter monitoramento ambiental contínuo e que não há evidências de que a usina cause deformidades em peixes. Estudos com compartilha de dados com órgãos como IBAMA continuam em curso.
A coordenação MATI defende a adoção de um regime alternativo, denominado Piracema Hydrograph, que prevê picos de vazão mais elevados em abril para favorecer a reprodução e reduzir impactos sobre igapós. Pesquisadores ressaltam que cenários climáticos extremos exigem ajustes na gestão hídrica para preservar a vida no pulso do Xingu.
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