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Estatísticas estáticas não capturam a complexidade da vida trans

Sara York coloca a experiência trans no centro da análise, desafiando números convencionais e defendendo políticas que transformem instituições

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Por Revisado por: Luiz Cesar Pimentel
Sara York foi uma das primeiras pesquisadoras a investigar as cotas trans no Brasil (Foto: Arquivo pessoal)
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  • Sara York, 57 anos, pesquisadora e pioneira nos estudos sobre cotas trans, defende analisar a experiência trans além de números e estatísticas.
  • O estudo dela mostra que cotas trans não são apenas acesso, mas visibilidade e transformação institucional, com primeiras iniciativas surgindo no Norte e Nordeste.
  • A pesquisadora aponta que nem todas as pessoas que se declaram trans têm trajetórias de exclusão histórica, o que levanta questões sobre reparação versus oportunismo institucional.
  • Questiona a ideia de que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e que a expectativa de vida seria de 35 anos, defendendo uma leitura que combine dados com relatos de vida e contextos sociais.
  • O futuro das pessoas trans no Brasil, segundo York, depende de políticas públicas inclusivas, redes de cuidado e educação antidiscriminatória, indo além de avanços legais para transformar as instituições.

No Brasil, as estatísticas sobre pessoas trans costumam definir o tema pela lente dos números, não pela experiência. Dados sobre violência, educação e expectativa de vida são usados para ordenar o debate público, muitas vezes sem questionar seus métodos ou contextos.

Sara York, pesquisadora paulista de 57 anos, propõe deslocar o foco da contagem para a vida real das pessoas trans. Formada em Pedagogia pela UERJ, pioneira nas cotas trans, ela defende analisar tempo, contexto e memória para entender desigualdades e possibilidades.

Mudança de foco na análise das cotas trans

York observa que a implementação de cotas trans envolve visibilidade, pertencimento e transformação institucional. Ela aponta que, no Brasil, iniciativas pioneiras aconteceram no Norte e no Nordeste, antes de estados tradicionalmente considerados mais liberais.

Ao destacar a autonomia universitária, a pesquisadora ressalta que cada instituição define regras próprias, nem sempre respondendo a pedidos de informação. Isso gera dúvida entre quem busca identificar-se como trans e quem já sofre há décadas com exclusões.

Desafios de políticas públicas e justiça histórica

Para ela, o desafio não é apenas abrir portas, mas transformar universidades. A prioridade deveria ser atender quem esteve historicamente marginalizado, reconhecendo trajetórias de vida, contextos históricos e desigualdades regionais.

York também discute o limite entre reparação histórica e oportunismo institucional. Políticas de cotas precisam incorporar critérios contextuais, já que algumas pessoas se identificam como trans apenas recentemente, sem vivência prévia de violências.

Dados, números e leitura social do corpo trans

A pesquisadora alerta que alegar ser o país com mais mortes de pessoas trans é uma simplificação. Dados disponíveis são parciais e não permitem comparações globais confiáveis. A leitura social do corpo trans deve considerar fatores de saúde, economia e cuidado.

Para compreender melhor, é essencial combinar estatísticas com narrativas de vida, entrevistas e etnografias que mostrem violências, resistências e projetos de futuro, sem reduzir tudo a mortalidade ou idade.

Futuro das pessoas trans no Brasil

Sara York descreve um caminho complexo, marcado por avanços legais e persistência de violência. O futuro requer redes de cuidado, educação anticapacitista e políticas públicas inclusivas que reconheçam a diversidade de experiências trans.

Sua trajetória, que inclui expulsão de casa e participação na Academia Brasileira de Letras, demonstra que a vida trans pode exceder previsões estatísticas. O foco, portanto, é ampliar direitos e manter a memória de lutas coletivas.

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