- Ali Vaez, especialista iraní, afirma que a retirada dos EUA do acordo nuclear de 2015 foi o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã.
- Ele sustenta que, se o acordo estivesse em vigor em 2025, o Irã estaria muito mais perto de restrições rígidas e sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica.
- Segundo Vaez, as negociações anteriores à guerra não foram sérias e a opção militar só adiou o problema por cerca de oito meses.
- As sanções fortaleceram a Guarda Revolucionária, que ficou mais poderosa com o tempo, e o novo líder supremo devele solicitado apoio ao grupo; a milícia Basij também ganha influência.
- O analista vê a guerra como uma “guerra de necessidade” para os EUA, com dificuldades para um alto ao fogo caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado e sem resolução do programa nuclear iraniano.
Ali Vaez, especialista em Irã da International Crisis Group, sustenta que a ruptura do acordo nuclear de 2015 pelo ex-presidente Donald Trump abriu caminho para a atual confrontação entre EUA, Israel e Irã. Vaez, físico nuclear exilado, participou de entrevistas por telefone com este jornal nesta segunda-feira.
Segundo o analista, a saída de 2018 do acordo restringia o programa iraniano e aumentava a vigilância da AIEA. Se o acordo estivesse vigente em 2025, Irã estaria muito mais longe de obter armas nucleares, sob supervisão internacional. A decisão de Trump é apontada como o marco que elevou o risco atual.
Vaez afirma que as negociações mais recentes, antes do conflito, não foram profissionais nem sérias. Segundo ele, o projeto diplomático não contemplava saídas viáveis e houve falta de especialistas técnicos nas mesas de negociação. A leitura é de que a via militar ofereceu apenas ganho de meses.
Sobre a Guarda Revolucionária, o especialista aponta dois fatores de maior poder: o aprofundamento das sanções que permitiram o controle de mercados paralelos e a ascensão do novo líder supremo, Mojtaba Jameneí, apoiado pela instituição. Este movimento é descrito como fortalecido pelo poder militar.
As sanções, diz Vaez, enfraqueceram a economia iraniana sem, contudo, conter a repressão interna ou as políticas regionais. Financiamento de aliados, continuidade de programas nucleares e cooperação com a Rússia teriam seguido, ainda que com custos para a classe média do país.
Sobre reformas internas, o analista aponta que a erosão social ocorrida com as sanções reduziu chances de mudanças dentro do país. Obstáculos estruturais do regime, aliados ao controle estatal, dificultaram qualquer transformação democrática, mesmo diante de protestos.
A invasão do Iraque em 2003 é citada como fator que moldou a percepção iraniana de ameaça externa. Vaez descreve uma chamada “defesa em mosaico”, com divisão de poder entre as províncias para evitar paralisação em caso de ataque central.
Quanto a um possível cessar-fogo, o especialista conclui que a narrativa de vitória de Washington seria frágil se o estreito de Ormuz permanecer fechado, a reserva nuclear não for resolvida e o regime seguir no poder. O conflito pode exigir ações que alterem o equilíbrio regional.
Sobre objetivos de EUA e Israel, Vaez aponta que Trump buscou marcar história com medidas radicais, influenciado por vozes belicistas. Israel, por sua vez, almeja enfraquecer o Estado iraniano, mas admite riscos de radicalização regional caso haja colapso.
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