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Como empresas britânicas lucraram com a escravidão no Brasil após a abolição

Casos de escravização ilegal praticada por britânicos no Brasil persistiram após a abolição, com aluguel de cativos e lucros de bancos até o século XIX

Enslaved people owned by the British mining company St John d’El Rey from 1868 or 1869.
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  • Em 1845, 385 cativas foram transferidas a uma empresa mineira brasileira, St John d’El Rey, sob aluguel (não venda, prática permitida pela Lei do Comércio de Escravos de 1843).
  • Mesmo com a campanha britânica contra a escravidão, o negócio não era considerado ilegal; havia prazo máximo de 14 anos para a libertação, que não ocorreu.
  • O embaixador britânico no Brasil soube do caso, mas não agiu por falta de evidências; apenas em 1879, 123 sobreviventes foram libertados.
  • O sistema envolveu bancos e comércio britânicos que usavam escravizados como garantia de empréstimos; entre 1848 e 1849, registro oficial indicava 3.445 escravizados sob domínio britânico.
  • O episódio contribuiu para a pressão que levou à abolição formal da escravidão no Brasil em 1888, ao mesmo tempo em que desmentiu a ideia de superioridade moral britânica.

Em 1845, ainda que cidadãos e empresas britânicas já não pudessem possuir ou comprar pessoas escravizadas no exterior, 385 indivíduos foram “transferidos” para a empresa britânica St John d’El Rey, no Brasil. A prática envolvia aluguel de cativas, permitida pela Slave Trade Act de 1843, com prazo máximo de 14 anos.

A libertação não ocorreu ao fim do termo. O embaixador britânico no Brasil soube do caso, mas alegou falta de provas e não agiu. Mais de três décadas depois, uma figura abolitionista brasileira levou o caso a público e os 123 sobreviventes foram libertados em 1879. A maioria já havia morrido em cativeiro.

O caso é apontado por historiadores como uma das mais notórias ligações entre o Reino Unido e a escravidão no Brasil, país de maior população escravizada na América, mesmo após a abolição formal no Reino Unido em 1833. Pesquisadores destacam que conexões comerciais contribuíram para a continuidade da exploração.

No livro British Entanglement with Brazilian Slavery, o historiador Joseph Mulhern descreve como o comércio, o crédito e a presença inglesa facilitaram uma nova camada de traficantes. Entre 1831 e 1850, o tráfico só acabou de forma efetiva após pressões britânicas, deixando cerca de 750 mil africanos trazidos ilegalmente ao Brasil.

Registros históricos citados por Mulhern também mostram que bancos britânicos tratavam pessoas escravizadas como garantia para empréstimos. Em um leilão em Rio de Janeiro, em 1878, uma mãe de 22 anos foi separada de seu filho de 3 anos, exemplificando as brutalidades ocorridas nesse período.

Outra peça do material de pesquisa é um censo encomendado pelo Foreign Office britânico, entre 1848 e 1849, que lista proprietários de escravizados no Brasil. Mesmo com subnotas, o levantamento aponta 3.445 escravizados ligados a interesses britânicos, majoritariamente vinculados a empresas de mineração como a St John d’El Rey.

O caso dos escravizados alugados foi revelado pelo abolicionista brasileiro Joaquim Nabuco, sendo considerado um dos gatilhos para a abolição da escravatura no Brasil, em 1888. A extensa participação britânica incluiu também pequenos comerciantes, como proprietários de pubs.

Mulhern ressalta que não houve benevolência entre os britânicos: a pesquisa desmonta a ideia de mestres britânicos paternalistas, destacando episódios de violência física e abuso sexual, além de práticas de libramento ilegal. A narrativa busca esclarecer conexões históricas além do marco da abolição britânica.

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