- Em 1553, judeus sefarditas exilados em Ferrara, na Itália, imprimiram pela primeira vez a Bíblia hebraica completa em espanhol.
- A comunidade era formada principalmente por judeus convertidos (conversos) que mantinham a prática secreta da fé, mesmo sem sinagogas ou rabinos.
- O duque Ercole II d’Este ofereceu proteção, permitindo que eles reavivassem rituais e aprendizados da tradição judaica.
- A edição foi vista como marco histórico, combinando tradução palavra-por-palavra do hebraico e preservação cultural, em período de reação da Igreja Católica durante o Concílio de Trento.
- A obra simboliza resistência e sobrevivência da comunidade sefardi, que enfrentava perseguições, expulsões e a Inquisição, e precisava manter vivo o conhecimento bíblico.
O texto conhecido como Bíblia de Ferrara nasceu em 1553, quando judeus sefarditas exilados na cidade italiana de Ferrara imprimiram a própria Bíblia hebraica em espanhol. O feito ocorreu em meio a perseguições e à necessidade de manter viva a fé em um contexto hostil.
A comunidade parecia composta majoritariamente por converts ao catolicismo que, no entanto, mantinham práticas judaicas em segredo. Sem sinagogas, sem rabinos e sem livros hebraicos, o grupo viu na impressão em espanhol uma forma de preservar rituais e textos sagrados.
Confinados pela proteção ducal de Ercole II d’Este, os judeus puderam recomeçar a aprender os rituais perdidos e redescobrir a língua bíblica. A Bíblia de Ferrara tornou-se a primeira edição completa impressa do Tanakh em espanhol, língua comum entre eles.
Contexto e significado
Segundo Paloma Díaz-Mas, a comunidade foi formada principalmente por judeus portugueses e espanhóis que permaneceram criptócritos, mantendo práticas familiares em segredo. A ausência de rabinos e de textos hebraicos acelerou a busca por uma tradução acessível.
Outros judeus da diáspora sefárdia buscavam reconstruir a fé em locais como Amsterdã, recorrentemente contratando rabinos de áreas otomanas ou norte-africanas para orientar as comunidades. A edição de Ferrara consolidou uma referência histórica durante o Concílio de Trento, que reafirmou a Vulgata como texto canônico católico.
Aspectos da edição
A obra foi publicada pela Fundação José Antonio de Castro, que atua na preservação do patrimônio literário espanhol. A edição descreve-se como uma tradução palavra-por-palavra do hebraico, reconhecendo, no entanto, que a literalidade pode soar estranha aos leitores atuais devido à diferença de sintaxe.
Mesmo com peculiaridades linguísticas, a Bíblia de Ferrara é vista como documento de sobrevivência. A capa traz a gravura de um navio com a proa quebrada, símbolo da jornada de exilados: o barco continua a seguir, guiado por uma figura de proteção, segundo a interpretação de Díaz-Mas.
Legado cultural
A obra permanece como testemunho da resiliência de uma comunidade que manteve viva a identidade, apesar das pressões da expulsão, da Inquisição e das conversões forçadas. O exemplar evidencia uma travessia entre perda e continuidade, com significado amplamente reconhecido na história judaica e na literatura espanhola.
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