- Dois prisioneiros de guerra ucranianos libertados por Moscou no dia cinco de março contam suas experiências de torturas e de recuperação, quatro anos depois.
- Vasil, de vinte e oito anos, e Mijailo, de quarenta e seis, estavam cercados pela força invasora em Mariupol e se entregaram sob ordens do presidente Volodímir Zelenski.
- Os homens passaram por prisões na Ucrânia ocupada e na Rússia, com punições físicas, falta de alimentação e interrogatórios sob violência. Vasil descreve tratamento desumano e isolamento extremo; Mijailo relata ferimentos graves e tomadas de decisões difíceis.
- Em Olenivka, cerca de novecentos prisioneiros ficaram em barracões superlotados; o ataque de julho de 2022 matou dezenas de presos, como parte das acusações entre Kiev e Moscou.
- Hoje, os ex-prisioneiros enfrentam o desafio de recomeçar a vida, com sequelas físicas e psicológicas; alguns prerecem a planejar futuro próximo, incluindo possível atuação como instrutor ou docente na área de defesa.
Dois dos últimos prisioneiros de guerra ucranianos liberados por Moscou relataram, em entrevista, as condições vividas durante anos de cativeiro. Eles teriam se rendido durante a resistência em Mariupol, em 2022, já sob fogo intenso, seguindo as ordens do presidente Volodímir Zelensky. A retirada ocorreu em meio a interrogatórios, torturas e isolamento prolongado.
Vasil, 28 anos, e Mijailo, 46, descrevem trajetórias paralelas de prisão e sofrimento. Ambos estiveram em vários centros de detenção entre a Ucrânia ocupada e a Rússia, após serem capturados enquanto defendiam a fábrica Illich, no último bastião de Mariupol. Hoje, eles tentam reconstruir suas vidas após quase quatro anos sob regimes severos.
Vasil relata um período inicial marcado por ataques constantes, alimentação precária e vigilância constante. Ele foi levado de Olenivka a Taganrog e depois a Briansk, sempre sob instruções forçadas e sessões de interrogatório com violência física e descargas elétricas. O prisioneiro manteve contatos limitados com familiares apenas nos últimos meses.
Mijailo descreve uma trajetória semelhante, com passagem por Olenivka, Taganrog e Kamishin, na região de Volgograd. Lá chegou a perder peso drasticamente e enfrentar interrogatórios repetidos, acompanhados de agressões. Em meio ao isolamento, ele relata que o grupo sob seu comando enfrentou condições extremas e violência cotidiana.
A dupla menciona ainda a ataque de Olenivka em julho de 2022, que resultou na morte de dezenas de prisioneiros. Eles afirmam ter visto jornalistas registrando os acontecimentos e atribuem as consequências a ações de propaganda selecionadas. Depois de Kamishin, Mijailo ficou quase quatro anos sem contato com a realidade externa.
Ao retornar, Vasil enfrenta sequelas físicas e mentais. Em um hospital na região de Kiev, ele recebe tratamento e antidepressivos, enquanto mantém uma visão tensa sobre o futuro e a possibilidade de retornar à vida cotidiana. O soldado descreve a experiência como uma provação que persiste mesmo após a libertação.
Mijailo, por sua vez, afirma que pode manter o vínculo com o serviço na Guarda de Fronteiras, se as circunstâncias permitirem. Ele planeja compartilhar sua experiência com futuros cadetes para promover uma visão mais realista do combate. Também comenta que, durante a prisão, houve uma redução acentuada de peso e que recebeu pouca assistência médica.
O contexto geral de intercâmbios de prisioneiros entre Rússia e Ucrânia, desde o início da ofensiva, envolve centenas de trocas ao longo de anos. O número de detidos e o andamento de cada caso variam conforme negociações entre as partes. Fontes oficiais estimam milhares de ucranianos ainda sob custódia, com dezenas a retornar ao país em diferentes momentos. Essa entrevista ao EL PAÍS ajuda a lançar luz sobre uma parte pouco divulgada do conflito, ressaltando o impacto humano e duradouro das prisões.
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