- Entre 26 e 27 de outubro de 2025, El Fasher, em Darfur, viveu um massacre com estimativa de até 10 mil mortos e pelo menos 40 mil desparecidos.
- A ofensiva foi liderada pela milícia RSF, que utilizou drones, tanques e forças armadas para cercar e atacar civis, inclusive em hospitais e na universidade.
- O general Aboud Khater, chefe das forças conjuntas de El Fasher, tentou proteger a população e recusou-se a fugir, mesmo com o cerco se intensificando.
- Hospitais e grandes áreas de abrigo foram palco de massacres; pelo menos 460 pessoas morreram no hospital al-Haykal, e centenas de civis foram mortos na universidade.
- Uma investigação do The Guardian aponta que avisos dos EUA e do Reino Unido sobre genocídio foram marginalizados; houve alegações de envolvimento da Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos, que nega participação militar.
Um relato detalhado aponta para os dois dias de outubro de 2025 em El Fasher, na região de Darfur, Sudão, como o capítulo mais violento deste século na cidade. Segundo investigações, até 10 mil pessoas teriam sido massacradas entre 26 e 27 de outubro, e cerca de 40 mil civis estariam ainda não contabilizados. A ofensiva ocorreu durante um cerco de 18 meses que levou à queda da capital regional.
A reportagem acompanha a trajetória de Aboud Khater, chefe das forças conjuntas locais, e de seus aliados na tentativa de proteger a população frente às forças do RSF. Khater liderava um comboio de 40 veículos que deixou El Fasher na madrugada de 27 de outubro, quando os combates se intensificaram e a cidade começou a se desintegrar.
As primeiras horas da manhã mostraram a superioridade aérea dos combatentes do RSF, com drones de ataque que atingiram hospitais, escolas e frentes de defesa. Médicos e pacientes relataram ataques a unidades como o hospital al-Saudi, enquanto civis buscavam refúgio na universidade local, rodeada por tropas de combate.
Desdobramentos na cidade
Entre as 7h e as 9h, equipes médicas descrevem uma virada brutal, com massacres dentro do hospital e em pontos da universidade. Civis fugiam para áreas de abrigo improvisadas, como áreas ao redor de dormitórios universitários, enquanto as forças em campo enfrentavam menor poder de resposta e munição.
A cidade ficou cercada por trincheiras erguidas pelos milicianos em apoio ao RSF, dificultando qualquer saída. Em 11h, relatos indicaram que centenas de pessoas ficavam presos na universidade, incluindo milhares de mulheres e crianças que tentavam se esconder em abrigos subterrâneos. A violência se intensificou ao longo do dia, com sumiço de moradores e ataques indiscriminados a quem tentava escapar.
Em meio ao caos, o conflito ganhou contornos pessoais. Gen Emam Doud, que ficou gravemente ferido, e Aboud Khater permaneceram no terreno por horas herdando decisões difíceis para tentar resguardar civis. Doud, atingido na cabeça, e Khater permaneceram lado a lado, recusando a evacuação até que fosse seguro fazê-lo para salvar o maior número possível de pessoas.
À medida que o dia avançava, a superioridade tática do RSF ficou evidente: tráfego de veículos equipados com armamentos pesados, uso de tanques e ações coordenadas para impedir a fuga de civis. Relatos descrevem uma sequência de ataques, prisões e execuções que deixaram a cidade em ruínas.
No final do 26 de outubro, Khater reuniu seus combatentes para manter a guarda de áreas estratégicas enquanto tentava conduzir civis para fora de El Fasher. A partir de 28h, o objetivo era abrir passagem para uma retirada segura, mas a Shahada de trincheiras continuou a obstruir os deslocamentos.
A investigação aponta falhas de coordenação e de alerta entre autoridades estrangeiras. Segundo relatos, avaliações de inteligência dos Estados Unidos e do Reino Unido teriam sido minimizadas ou enterradas, o que, segundo a apuração, contribuiu para a ausência de intervenção pontual para evitar as mortes em El Fasher. Observadores destacam que o apoio logístico internacional permaneceu ausente durante o cerco.
Este é o retrato de um episódio de violência extrema envolvendo forças locais e milícias apoiadas por potências estrangeiras. A região de Darfur viveu, nos dias subsequentes, um panorama de destruição, deslocamento e buscas por corpos e por sobreviventes, com consequências humanitárias que continuam a desafiar autoridades e organismos humanitários.
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