- O general Min Aung Hlaing foi nomeado presidente de Myanmar em abril, consolidando poder após o golpe; a eleição de dezembro a janeiro foi conduzida com apoio de Beijing.
- O ocidente reduziu a ajuda desde 2021 e, com isso, as finanças para o regime passaram a depender mais da China.
- A China financia eleições em estados frágeis, e em Myanmar houve um pacote de ajuda que incluiu um censo nacional e uma eleição federal, visando legitimar o regime e manter a estabilidade.
- Mais da metade dos eleitores elegíveis foi excluída ouativou boicote; votação ocorreu em cerca de 260 dos 330 dic township.
- O vácuo de liderança democrática no Ocidente favorece a prática chinesa de buscar segurança e influência, mantendo Myanmar instável, mas sob controle econômico e político para Beijing.
Myanmar, sob controle de Min Aung Hlaing, recebeu em Beijing uma passagem de prestígio após a confirmação de sua instalação no poder. Em abril, ele foi nomeado presidente, consolidando uma liderança que já exercia há mais de cinco anos. Nesta semana, ele desfilou em um tapete vermelho em solo chinês, após uma sequência de encontros diplomáticos que legitima a transição de fato para o cargo civil, ocorrida após eleições criticadas.
Para muitos cidadãos, da diáspora e da resistência, a eleição não alterou o rumo dos acontecimentos; o conflito persiste. A transição, apresentada como civil, é vista por analistas como exemplo do custo do retiro ocidental de instituições frágeis. Pequim patrocinou o pleito, reforçando o papel da China em estados frágeis onde ocidentais se retiraram.
Financiamento de eleições na mira
Antes do golpe de 2021, a comunidade internacional investia em Myanmar para fortalecer democracia. De 2015 a 2021, a ajuda ao desenvolvimento somou cerca de 2,4 bilhões de dólares por ano. Doadores como Japão, EUA e Reino Unido priorizavam setor público, sociedade civil e saúde.
Após o golpe, a assistência direta ao governo foi reduzida: muitos parceiros rejeitaram legitimidade à junta. O auxílio ao setor público caiu cerca de dois terços em dois anos, chegando a 1 bilhão de dólares em 2024. O financiamento ligado a sanções restringiu ainda mais as receitas formais da economia.
O papel da China no cenário eleitoral
A China tem histórico complexo como parceira de desenvolvimento de Myanmar. Em 2015, foi a principal fornecedora de ajuda, com quase 1 bilhão de dólares, financiando infraestrutura como portos e gasodutos. Em 2023, esse aporte caiu a apenas 3 milhões de dólares, antes de se reativar.
No fim de 2023, Pequim se viu envolvida na violência nas regiões fronteiriças. Grupos de milícias com apoio chinês passaram a atuar para enfrentar redes criminosas locais. A ofensiva, chamada de Operação 1027, buscou reduzir atividades ilícitas e ampliar a presença estatal em áreas sob controle de insurgentes.
Eleições de 2024 a 2026 e a agenda chinesa
Em 2024, passou a haver uma oportunidade de legitimação para investir ou contratar. Myanmar, rico em recursos naturais, tornou-se foco de um corredor econômico com grande influência chinesa. O projeto China-Myanmar Economic Corridor envolve infraestruturas estratégicas que podem assegurar rotas marítimas e terrestres para a região.
Ao longo de 2024 e 2025, a China financiou ações para civis, incluindo um censo nacional e uma eleição federal realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. O pleito teve participação reduzida e boicotes, com votação ocorrendo em menos de 80% dos distritos eleitorais.
Relevância regional e impactos
Paralelamente, o vazio deixado pelos EUA na promoção de democracia em contextos sensíveis foi sentido pela região. Outras potências, como Rússia e Índia, atuam de forma discreta, sem oferecer substitutos robustos para o papel ocidental. Países vizinhos, como Bangladesh e Tailândia, enfrentam a pressão de responder às consequências cruzadas do conflito.
Na ASEAN, cresce a sensação de necessidade de posicionamento claro frente à crise de Myanmar. Há sinais de mudança na postura de alguns membros, sem, porém, consolidar um caminho pacífico e inclusivo. Em Myanmar, a liberação de alguns prisioneiros políticos e imagens não verificadas de figuras políticas indicam apenas flutuações no cenário interno.
O destino do Estado birmanês permanece incerto. O conflito é prolongado e multifacetado, e qualquer acordo durável exigirá uma distribuição plural de legitimidade e questões de justiça geracional. O que se observa, com clareza, é que uma eleição simulada, financiada por uma autocracia externa, não sustenta a paz. O papel da China tende a se manter na busca por segurança, ordem e alavancagem para proteger seus investimentos e fronteiras.
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