- O presidente dos EUA, Donald Trump, recuou pela segunda vez em menos de uma semana de ameaças de atacar a indústria de energia do Irã, diante das dificuldades de ampliar a guerra sem sofrer impactos econômicos.
- O preço do barril fica em torno de US$ 110, e as bolsas de Wall Street, além de títulos da zona do euro e do Tesouro dos EUA, operam em queda.
- Economistas avaliam que, se a infraestrutura energética regional for danificada, o mundo e os EUA sofreriam com menor oferta de petróleo, prejudicando a popularidade de Trump entre eleitores independentes e republicanos.
- Analistas alertam que a guerra pode ter consequências catastróficas se se prolongar, afetando gás usado em fertilizantes e a produção de chips e semicondutores, especialmente em Taiwan.
- Em meio a eleições legislativas em novembro, há preocupações sobre o impacto político do conflito e sobre possíveis cenários de escalada, com o estreito de Ormuz no centro das tensões.
O segundo recuo de Donald Trump em menos de uma semana diante da ameaça de atacar a indústria de energia do Irã revela as limitações dos EUA para ampliar o conflito, diante dos impactos econômicos do fechamento do Estreito de Ormuz e dos ataques à infraestrutura energética do Golfo.
O efeito imediato é um petróleo ao redor de US$ 110 o barril, com ações em Wall Street em patamar próximo aos mínimos de seis meses e quedas nos títulos na zona do euro e no Tesouro dos EUA. Analistas observam que a pressão econômica pressiona a estratégia militar.
Para o economista Pedro Paulo Bastos, da Unicamp, Trump faz gestos de endurecimento para testar a adesão doméstica, mas recua porque eventuais ataques iranianos podem acirrar retaliações no Golfo. Ele diz que danos à produção elevam o preço global do petróleo.
Bastos destaca que uma destruição mais ampla da infraestrutura energética aumentararia as perdas econômicas globais e nos EUA, dificultando qualquer reversão rápida da capacidade produtiva. A reativação de sistemas paralisados demanda tempo e investimentos.
Economista Marco Fernandes, do Brics, aponta que efeitos econômicos podem se tornar catastróficos se o conflito se prolongar ou ampliar os estragos na região. Ele compara o cenário a junções de crises anteriores, com impactos significativos sobre mercados globais.
Fernandes também alerta que o recuo pode indicar estratégia de tempo para uma invasão terrestre do Irã, o que elevadaria as respostas iranianas e aprofundaria a crise econômica que Trump tenta conter. A intensificação de ações na região poderia acender novas fraturas no mercado energético.
O gás do Oriente Médio, essencial para fertilizantes, chips e semicondutores, é citado como fator crucial. O setor de tecnologia depende de insumos nesse eixo, com a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company destacando vulnerabilidade diante de possíveis interrupções de suprimento.
O analista lembra ainda que 60% a 70% da produção global de chips vem de Taiwan, e que quedas prolongadas no fornecimento de gases raros podem agravar a crise tecnológica mundial. Ele ressalta que, em uma guerra prolongada, estoques e capacidade industrial dos EUA seriam pressionados.
Além disso, o abastecimento americano de defesa pode sofrer com compromissos de longo prazo, e a região pode ficar sem defesa suficiente contra mísseis iranianos, elevando o risco para aliados e ativos dos EUA no Oriente Médio. O cenário é descrito como potencialmente catastrófico para EUA e Israel.
Segundo Fernandes, apesar de o Irã ficar posicionado para extrair concessões ao fechar o estreito, a maior produção de petróleo mundial não impede que o preço interno de combustíveis nos EUA eleve a inflação, o que impacta a popularidade de Trump junto a eleitores indecisos e membros do Partido Republicano.
Risco político
Em novembro, as eleições legislativas nos EUA ampliam a atenção sobre a popularidade de Trump, já pressionada pela inflação causada pelas tarifas. O Irã, segundo especialistas, busca manter o controle sobre o espaço estratégico até obter condições que favoreçam sua posição.
Fontes: especialistas consultados pela Agência Brasil; avaliações de analistas geopolíticos consultados para o contexto regional.
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