- Florence Gaub, pesquisadora líder da divisão de pesquisa do Colegio de Defensa de la OTAN, em Roma, se apresenta como futuróloga da aliança.
- Seu trabalho busca cenários a dois a cinco anos, combinando tendências de fundo com fatores políticos para antecipar crises.
- Ela afirma que a guerra atual vem se gestando desde os anos dois mil, especialmente com o programa nuclear do Irã; wars podem ocorrer quando há vontade de agir, coincidência de capacidades e fontes não resolvidas.
- Entre os focos atuais estão o Ártico, o espaço, o domínio marítimo, desinformação, ciberataques e sabotagem de infraestruturas.
- Sobre riscos, destaca que a terceira guerra mundial pode surgir sem que alguém a queira, por falhas de comunicação ou leituras erradas, e que o maior desafio é a regulação da inteligência artificial e a empatia estratégica entre países.
Florence Gaub, uma politóloga franco-alemã, atua como diretora de pesquisa do Colégio de Defesa da OTAN, em Roma. Ela se autopropõe como futuróloga da aliança, estudando tendências para antecipar crises e tentar evitá-las. A entrevista ocorreu em Paris, em meados de fevereiro, pouco depois do início dos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã.
Gaub tem 48 anos e dedica-se a analisar cenários de crise com horizon de dois a cinco anos. Formada em ciência política, ela trabalha na OTAN desde uma atuação que exige visão prática e conhecimento de Oriente Médio. Em sua visão, guerras podem emergir quando há combinação entre desejo de agir, capacidade material e fontes não resolvidas.
A pesquisadora descreve a trajetória familiar como parte da vocação. O avô alemão integrou a Wehrmacht e o avô francês participou da resistência. Esses antecedentes moldaram seu interesse em entender como sociedades digerem conflitos e como evitar repeti-los. Ela chegou à OTAN aos 31 anos, ainda jovem para a função, mas com o perfil requisitado.
Para Gaub, a OTAN oferece um ambiente pragmático voltado à segurança, o que facilita a aplicação prática de ideias, diferentemente da UE, onde houve maior componente ideológico. Ela ressalta que a postura da instituição permite explorar soluções sem se prender a dogmas. A futuróloga também usa referências da ficção científica e publica quadrinhos para explorar cenários.
Sobre o rótulo de futuróloga, a pesquisadora afirma que o termo facilita explicar seu trabalho: pensar em possíveis conflitos ou catástrofes futuras, a partir de tendências, sinais fracos e relações de causa e efeito. O objetivo é indicar ações no presente para influenciar o desfecho.
Entre os focos atuais, Gaub cita o Ártico, o espaço, o domínio marítimo e questões como desinformação, ciberataques e sabotagem de infraestrutura. Ela enfatiza que a história militar costuma errar na hora de prever quando, quanto tempo e com que tecnologia ocorrem os conflitos, sendo preciso preparação para surpresas.
Sobre avanços tecnológicos, a especialista aponta que a inteligência artificial é motivo de preocupação, principalmente pela regulação. O maior risco, segundo ela, é perder a empatia estratégica entre nações rivais, o que poderia desencadear conflitos por falhas de comunicação.
Gaub também comenta sobre o risco de uma terceira guerra mundial, afirmando que o perigo não vem de uma decisão repentina de alguém, mas de deslizes que ocorrem sem intenção. Acesse investir tanto em defesa quanto em diplomacia para evitar escaladas não desejadas.
Quanto ao retorno de figuras políticas, ela analisa que a surpresa se tornou método de liderança. Movimentos ultraliberais prometem rupturas, enquanto partidos tradicionais parecem gerir o presente, sem mobilizar grandes parcelas da população. Gaub aponta a importância de enxergar o futuro como uma ideia estratégica. Fonte: El País.
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