- O primeiro-ministro do Canadá alertou que a ordem mundial está em ruptura e defendeu que potências médias devem se unir para enfrentar a volatilidade, apesar de muitas já atuarem como “nicho superpotências” de forma individual.
- Taiwan é apresentado como exemplo extremo de potência de nicho, com papel central na produção de chips avançados e a ideia do “escudo de silício” para reduzir riscos de intervenção externa.
- Finlandia é líder global na construção de quebra-gelos, enquanto a Coreia do Sul domina a construção naval de alta tecnologia, usando essas capacidades para influenciar suas relações com Estados Unidos e China.
- Brasil e Vietnã exploram suas minerais críticos para reforçar posição econômica: o Brasil negocia com os EUA a extração e exportação de minerais raros; o Vietnã avança na refino e separação de terras raras, buscando autonomia estratégica.
- Em Davos, Carney pediu cooperação entre potências médias, mas governos já atuam individualmente; resta saber se a ideia de uma coalizão funciona diante de tensões entre Estados Unidos e China.
A Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, trouxe uma leitura sob risco para a ordem mundial. Ele afirmou que o cenário atual não impõe limites ao poder dominante, o que aumenta a incerteza para muitos países que buscam estabilidade com os Estados Unidos e com a China. O deslocamento não é visto como solução simples para todos.
Carney defende que potências médias, sem dominar o globo, podem se organizar para enfrentar a volatilidade global. Enquanto alguns países ainda buscam alianças, outros avançam como “meias potências de nicho”, explorando capacidades específicas para projetar influência.
Nichos estratégicos e atores-chave
Taiwan surge como exemplo extremo de uma nação que domina a produção de semicondutores avançados, crucial para a economia mundial. A dependência de Taiwan de mercados dos EUA e da China ilustra como cargos de poder podem ser defendidos bilateralmente.
Finlândia destaca-se na construção de quebra-gelos, respondendo a um clima ártico cada vez mais relevante para comércio e exploração de recursos. A expertise finlandesa já molda escolhas de logística e governança no norte do planeta.
Indústria naval e o papel da Ásia
A Coreia do Sul domina construção naval de alta tecnologia, com uma única linha de produção em Ulsan gerando mais navios que grande parte da indústria americana. Em 2025, o país registrou vendas recordes de motores navais de alto valor para a China.
Esses casos ilustram a transformação de capacidades nacionais em instrumentos de política econômica. Em resposta a tarifas impostas pelos EUA, Finlanda e Coreia firmaram acordos que fortalecem laços bilaterais com Washington, em detrimento de estruturas multilaterais tradicionais.
Brasil e Vietnã na arena de minerais críticos
Brasil negocia com os EUA para exportação de minerais raros, buscando tornar-se opção relevante diante da dependência de fornecedores chineses. Vietnã atua na refinação e separação de terras raras, preparando-se para influenciar negociações futuras.
O país já restringiu a exportação de matérias-primas e aposta em controle tecnológico para ampliar sua autonomia estratégica. A experiência vietnamita mostra a importância de capacidades de processamento ao lado de recursos naturais.
Caminhos para o médio poder contemporâneo
Vietnam, entre outros emergentes, visa manter-se relevante ao oferecer know-how tecnológico aos EUA e à China, em vez de se restringir a blocos regionais. Esse movimento sinaliza uma tendência de elevar o valor agregado na cadeia de produção.
Na prática, o objetivo é tornar-se indispensável aos grandes polos de poder, seja pela produção, seja pelo domínio de tecnologias estratégicas. Essa abordagem é vista como alternativa à moldagem por meio de alianças amplas.
Desafios e perspectivas
Em Davos, Carney enfatizou a necessidade de cooperação entre potências médias para enfrentar a competição entre EUA e China. Embora já tenha havido tentativas, como encontros entre ministros de várias potências médias, o cenário atual coloca perguntas sobre a viabilidade de coalizões amplas.
O modelo de cooperação pode exigir ajustes, já que mudanças no apoio de grandes potências podem gerar incentivos para ações unilaterais. A viabilidade de uma coalizão de potências médias permanece incerta diante de pressões econômicas e políticas.
Conclusões e caminhos adiante
A leitura de Carney aponta para um equilíbrio entre atuação solo e colaboração estratégica. Cada potência média precisa desenvolver um nicho que a torne indispensável a qualquer um dos grandes atores. O caminho escolhido pode definir a relevância regional e global nos próximos anos.
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