- Inuuteq Storch, artista groenlandês, ganhou notoriedade ao ocupar o pavilhão da Dinamarca na Bienal de Veneza de 2024 e abriu mostra no MoMA PS1; uma nova edição da exposição chega ao Hasselblad, na Suécia.
- O acordo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aumentar declarações sobre tomar a Groenlândia gerou espanto local e internacional; para Storch, a situação traz incerteza sobre mudanças na vida cotidiana.
- Seu trabalho fotografa o cotidiano dos groenlandeses, com séries como Keepers of the Ocean (2019) e Soon Will Summer Be Over (2023), que abordam tradições, gelo, mudança climática e influência ocidental.
- O artista também preserva imagens do passado, digitalizando o trabalho de John Møller, o primeiro fotógrafo groenlandês, e criou Mirrored (2021), conectando passado colonial ao presente.
- O sonho de longo prazo é um museu de fotografia groenlandês no território, com projetos de livros como What If You Were My Sabine? e Knight’s Hood Poems; ele se mostra otimista em relação aos jovens artistas e ao reconhecimento da cultura.
Inuuteq Storch, artista groenlandês que ganhou notoriedade internacional ao ocupar o pavilhão da Dinamarca na Bienal de Veneza de 2024, abriu recentemente uma grande mostra no MoMA PS1, em Nova York. Em Hasselblad, na Suécia, onde apresenta uma nova leitura de sua exposição veneziana, ele comenta o impacto de falas do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, sobre Groenlândia.
Trump intensificou no início do ano antigo debate sobre a possibilidade de adquirir Groenlândia, assunto que surpreendeu moradores e artistas ao redor do mundo. Em Davos, o norte-americano sinalizou um quadro de possíveis negociações, sem detalhar propostas, o que gerou incertezas sobre o futuro político e econômico da região.
Storch evita falar sobre política, mas afirma que o tema chegou de forma existencial para sua comunidade, que já vivenciou mudanças em torno de tradições e identidade. O artista mencionou que a vida cotidiana no território pode sofrer alterações caso haja novas decisões externas, o que alimenta preocupações locais.
Na prática artística, Storch foca em retratar o cotidiano groenlandês com uma linguagem contida e cuidadosa. Em Keepers of the Ocean (2019), registros em Sisimiut mostram jovens reunidos, além de imagens de uma moradora idosa com a bandeira groenlandesa ao fundo, ressaltando a vida diária e a ligação com o território.
Além disso, o trabalho de Storch envolve a preservação de imagens históricas. Ele digitalizou fotografias de John Møller, o primeiro fotógrafo de Groenlândia, e criou a série Mirrored (2021), que relaciona as imagens de época com cenas contemporâneas, questionando poder, resistência e legados coloniais.
Outro eixo presente na produção é o peso da presença norte-americana na região. Em Soon Will Summer Be Over (2023), o artista aborda relocação de famílias em Qaanaaq, em 1953, para viabilizar a base de Thule, conectando essas memórias a temas como mudanças climáticas e transformações culturais.
Storch estudou na Dinamarca e concluiu a formação na New York’s International Center of Photography, em 2016, mas retornou a Sisimiut para dedicar-se à valorização da cultura local. Atualmente, ele prioriza a circulação de seus trabalhos por meio de livros, com dois projetos em andamento, incluindo One celebrado de forma destacada no MoMA PS1.
O artista sonha em criar um museu de fotografia no Groenlândia que reúna obras de Møller e de fotógrafos emergentes da região. Segundo ele, há poucas estruturas de exibição, e a linguagem visual groenlandesa é fortemente baseada em imagens, o que reforça o potencial pedagógico do projeto.
Storch reconhece uma mudança no tratamento da Groenlândia por atores internacionais, de modo que o debate externo muitas vezes ausenta a participação local. Em Hasselblad e nas iniciativas ligadas à mostra de Veneza, ele evidencia a importância de preservar a história e promover o acesso à cultura groenlandesa para públicos amplos.
Apesar dos desafios, o artista se mostra otimista. Afastando-se de visões apressadas, ele aponta que jovens talentos groenlandeses estão ganhando reconhecimento, tanto nacional quanto internacional, o que fortalece a identidade cultural e a presença de Groenlândia no cenário global.
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