- A exigência de gastar 5% do PIB em defesa, embora politicamente conveniente, nem sempre fortalece capacidades militares.
- A Itália ilustra: aumento de gasto declarado não se traduziu em maior eficácia operacional, com recursos realocados para política interna e programas de grande investimento.
- Dois problemas aparecem: o orçamento cresce para atender metas, mas sem melhorar treinamento, prontidão ou criação de reserva; e missões domésticas reduzem tempo para preparo militar.
- O país também investiu fortemente em plataformas e infraestrutura defensiva, enquanto áreas-chave como operações, manutenção e treinamento ficaram estagnadas ou minguaram.
- Caminhos sugeridos: discutir defesa de forma honesta com a população, promover debates público-acadêmicos sobre o tema e fortalecer forças reservistas regionais para reduzir o hiato civilo-militar.
O debate sobre gastos de defesa da OTAN pode não traduzir-se em maior capacidade militar. O tema ganhou fôlego após o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, defender 5% do PIB no orçamento de defesa até 2035. A avaliação, porém, é contestada por especialistas, que apontam eficácia abaixo do esperado quando se observa a prática dos próprios aliados.
Um caso que ilustra o problema vem da Itália. O país reportou cumprir a meta de 2% do PIB em Defesa à OTAN, mas o gasto efetivo destinado às Forças Armadas foi menor, deslocado para outras áreas, e muitas despesas ocorreram por meio de reclassificações orçamentárias. A percepção pública de ameaça militar é baixa e a relação entre militares e sociedade é histórica e complexa.
Desempenho versus percepção pública
A Itália tem seguido duas estratégias para responder à pressão de aliados sem fortalecer de fato suas forças armadas. Primeiro, priorizou o cumprimento formal de benchmarks de gastos, incluindo a mobilidade militar, em detrimento de aumentar recursos operacionais. Em 2025, o orçamento de defesa divulgado à OTAN foi de cerca de 45 bilhões de euros, apesar de gastos reais em defesa ficarem em torno de 31 bilhões, segundo fontes oficiais.
Segundo, o aumento de recursos foi direcionado a atividades que atendem a objetivos políticos domésticos, em vez de melhorar prontidão e capacidade de combate. O resultado é o que especialistas chamam de aparência de fortalecimento sem ganhos proporcionais na efetividade real.
Estrutura e prioridades da defesa italiana
Historicamente, o vínculo entre as Forças Armadas e a sociedade italiana foi moldado pela memória da Segunda Guerra Mundial. A população, em grande parte, rejeitava o uso da força em relações internacionais, o que contribuiu para um afastamento entre aparato militar e cotidiano. Após a Guerra Fria, o uso generalizado das forças em operações ganhou confiança pública, mas a sustentabilidade desse apoio depende de princípios básicos de operacionalidade.
Do ponto de vista financeiro, a Itália concentra recursos em grandes programas de investimento, especialmente nas forças terrestres blindadas, com quase 23 bilhões de euros destinados a esse setor. Esses investimentos trazem ganhos econômicos e industriais locais, mas não compensam a falta de recursos para operações, manutenção e treinamento, áreas tradicionalmente menos valorizadas.
Além disso, o país mantém missões que desviam tropas de treinamentos, o que reduz a prontidão. Mesmo após a invasão da Ucrânia, o orçamento reserva cerca de 250 milhões de euros por ano para operações de policiamento interno e missões de suporte, com impacto direto na capacidade de combate.
Caminhos para melhorar a efetividade
Analistas apontam três caminhos para alterar a dinâmica entre gasto e capacidade. Primeiro, reconhecer e enfrentar uma ameaça externa significativa, como vem ocorrendo em boa parte da Europa Central e Oriental. Segundo, promover um debate público informado sobre defesa, envolvendo universidades, forças armadas e a sociedade, sem interpretações ideológicas. Terceiro, aproximar a população das forças ao fortalecer reservas regionais voluntárias, que permitam manter o ritmo de vida normal.
Se a OTAN quer ver realçamento de capacidades, não basta aumentar orçamentos. É necessário reduzir a distância entre a defesa e a sociedade, com educação pública sobre funções militares e cooperação entre academia, governo e indústria de defesa. Sem esse alinhamento, o aumento de recursos tende a não se traduzir em melhoria efetiva das operações.
Entre na conversa da comunidade