- Entre 2024 e 2025, 1% das empresas contratadas para shows públicos ficou com 56% dos recursos destinados a essas contratações.
- O total foi de R$ 5,2 bilhões para 21 mil empresas, em 85 mil contratações nos últimos dois anos.
- As maiores empresas concentram verba: Criative Music e LL Villas receberam mais de R$ 50 milhões cada; Talismã (cantor Leonardo) ficou com pelo menos R$ 44 milhões; OK Produções, ligada a Natanzinho Lima, teve ~R$ 42 milhões.
- Wesley Safadão está associado a seis empresas que, juntas, somam R$ 67 milhões em contratos com prefeituras e governos estaduais.
- Medidas propostas pelo senador Alessandro Vieira buscam ampliar participação de artistas locais (mínimo de 50% das contratações) e tornar detalhes das despesas mais transparentes para a população.
O pagamento de shows de prefeituras concentrado em poucas empresas e artistas aponta para assimetria no uso de recursos públicos. Dados do Portal Nacional de Contratações Públicas indicam que 1% das empresas contratadas entre 2024 e 2025 recebeu mais da metade dos repasses destinados a apresentações artísticas. A análise envolveu 85 mil contratações nos últimos dois anos, totalizando 5,2 bilhões de reais para 21 mil empresas, incluindo municípios com dificuldades fiscais.
Apesar da diversidade de contratados, há uma concentração acentuada: 200 empresas, ou 1% do total, captaram 56% do dinheiro e, isoladamente, respondem por 2,9 bilhões de reais. Entre as favoritas estão agências que representam artistas da música gospel, como Gabriela Rocha e Isadora Pompeo, com ambas superando 50 milhões de reais em contratos públicos nos dois últimos anos.
Entre as maiores donas de contratos, a Talismã, associada ao cantor Leonardo, recebeu pelo menos 44 milhões de reais por 64 shows no período. Em seguida aparecem a OK Produções, ligada a Natanzinho Lima, com 42 milhões, além de vínculos da NL Produções, que contabilizou 23 milhões em contratos com dinheiro público.
Wesley Safadão figura como caso isolado: o artista está ligado a seis empresas que promovem shows dele e também gerenciam outros nomes. Juntas, essas empresas somam 67 milhões de reais em contratos com prefeituras e governos estaduais. O conjunto de grandes empresas costuma concentrar os artistas mais caros, abrindo espaço para pressões orçamentárias nas cidades.
Autoridades locais e especialistas defendem medidas para frear a escalada de preços. Em Bahia, o movimento São João sem Milhão, desenvolvido com o Ministério Público estadual, traçou balizas para reduzir custos e evitar que cidades paguem cachês excessivos pelo mesmo artista. A ideia é padronizar condições e valores.
Para o Movimento Orçamento Bem Gasto, há responsabilidade também dos artistas, que devem contribuir para reduzir gastos públicos com cachês discrepantes. A atuação conjunta de artistas e gestores públicos é citada como essencial para reverter o cenário de concentração.
A dificuldade de identificar o artista mais contratado decorre da falta de campo específico no portal para discriminar contratação por artista e a descrição genérica de objetos. Além disso, anexos e detalhamentos nem sempre são disponibilizados pelas prefeituras.
Desigualdade e impactos
Mesmo com cachês que ultrapassam o milhão por apresentação para nomes como Gusttavo Lima, a maioria dos contratos envolve artistas de menor porte. A mediana das contratações nos últimos dois anos ficou em 15 mil reais, revelando um perfil de gastos mais frugal na prática para grande parte dos shows.
As 200 empresas que mais receberam recursos representam 1% das contratadas, respondendo por 13% dos contratos e 56% do dinheiro público destinado aos shows. Economistas destacam que tal concentração pode reduzir o efeito estimulante da cultura local.
Especialistas defendem que parte do dinheiro público seja destinada a artistas locais ou regionais, fortalecendo redes culturais e serviços da comunidade. A ideia é ampliar a circulação de recursos pela economia local e incentivar novos talentos.
Medidas de transparência
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) apresenta projeto de lei com diretrizes para alterar o cenário. Propostas incluem exigir 50% das contratações anuais com artistas locais, ampliar a divulgação de dados 30 dias antes dos eventos e detalhar custos de transporte e logística. A ideia também prevê consulta popular sobre contratações.
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