- O Brasil vive uma tradição religiosa importante na formação musical, com muitos músicos de orquestras vindo de igrejas evangélicas, especialmente pentecostais, como a Congregação Cristã no Brasil (CCB).
- Entre oitenta e noventa por cento dos músicos da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo têm ligação com igrejas pentecostais, com muitos vindo da CCB.
- A CCB mantém forte tradição musical, com grandes conjuntos em cultos; as obras costumam não ter autoria individual, segundo Cláudio Moraes.
- Músicos jovens formados em igrejas, como Jhony Santos e Otielen Luz, ingressam em orquestras profissionais mantendo participação religiosa.
- Projetos sociais ligados a igrejas contribuem para a formação musical, como Elikya, Fábrica de Artes e Dorcas; o crescimento evangélico no Brasil é evidenciado por queda de católicos de 65,1% para 56,7% entre 2010 e 2022.
A formação musical ocidental nasce de uma tradição fortemente ligada à religião, com a Igreja atuando como polo de criação e ensino por séculos. Parte significativa da música produzida ao longo dos séculos visava louvar a Deus e integrar a liturgia cristã. Com o tempo, mudanças sociais e religiosas redesenharam esse mapa.
No Brasil contemporâneo, observa-se um crescimento de músicos que chegam às orquestras profissionais a partir de igrejas evangélicas, especialmente pentecostais. O alto entrelaçamento entre fé e prática musical tem influenciado o perfil dos instrumentistas e cantores que ingressam em formações de alta exigência.
Herança religiosa
Ao longo da história, obras fundamentais da música clássica surgiram em contextos religiosos. Compositores como Vivaldi, também padre, dedicaram parte de suas carreiras à música sacra. No Brasil do século XVIII, Frei Jesuíno do Monte Carmelo atuou como artista e criador, unindo arte e fé.
Esses exemplos mostram instituições religiosas como centros de formação musical e produção cultural por longas épocas. A relação entre igreja, educação e música moldou tradições que atravessam gerações.
Cenário brasileiro
Nas últimas décadas, o perfil religioso do país alterou o panorama. O crescimento das igrejas evangélicas, especialmente nas periferias, ampliou a participação de fiéis na formação de novos músicos. Estima-se que entre 80% e 90% dos músicos da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo têm ligação com igrejas pentecostais, segundo o maestro Cláudio Cruz.
Boa parte desses músicos vem da Congregação Cristã no Brasil (CCB), uma das maiores denominações evangélicas do país. O Censo de 2010 apontava cerca de 2,29 milhões de fiéis; estimativas atuais indicam mais de 4 milhões.
Tradição musical da CCB
A Congregação Cristã no Brasil possui forte tradição musical, com grandes conjuntos instrumentais em seus cultos. Algumas leituras indicam que essa formação chega a ser chamada de “a maior orquestra do Brasil”.
A igreja mantém discreta divulgação pública e não remunera seus líderes. As composições usadas nos cultos costumam não ter autoria individual, reforçando a visão de que a música é da comunidade.
Formação musical
Muitos músicos que hoje atuam em orquestras profissionais iniciaram ainda criança dentro das igrejas. É o caso do violinista Jhony Santos, da Ojesp, que começou aos seis anos em Itaquaquecetuba e permanece ligado aos cultos de sua igreja, onde afirma tocar para adorar a Deus.
Para ele, o objetivo na igreja é diferente do ambiente profissional: fazer música com o coração.
Igrejas formam músicos
Além da CCB, outras denominações influenciam a formação musical. A Assembleia de Deus, maior igreja evangélica, também forma instrumentistas e cantores. A violinista Otielen Luz, da Orquestra Jovem Tom Jobim, começou na Assembleia de Deus aos sete anos e hoje rege um coral de jovens adultos em Osasco.
Regras musicais
Apesar de incentivarem a música, as denominações diferem em práticas. Na Assembleia de Deus, há maior liberdade para rearranjos; mulheres atuam em diversos instrumentos. Na CCB, mulheres costumam tocar órgão, com os homens dominando a maioria dos outros instrumentos. Essa divisão influencia o equilíbrio de gênero nas orquestras, onde as mulheres representam cerca de 22% dos bolsistas da Ojesp.
Desafios e adaptações
O maestro Cláudio Cruz relata situações em que músicos vindos de igrejas recusaram obras específicas por motivos religiosos, como Carmina Burana. Tais casos exigem diálogo para adaptar repertórios às crenças dos músicos sem comprometer a apresentação.
Educação musical
Projetos sociais ligados a comunidades evangélicas ajudam a explicar o crescimento de músicos formados nessas igrejas. O Projeto Elikya, da igreja Vitória em Cristo, atende cerca de mil jovens com oficinas. A Fábrica de Artes, da Batista da Lagoinha, em BH, oferece cursos de música, teatro e dança. No Paraná, o Projeto Dorcas utiliza a música para educação de milhares de crianças e adolescentes.
Crescimento evangélico
Dados do Censo de 2022 indicam mudança demográfica relevante: a parcela da população evangélica subiu de 21,6% em 2010 para 26,9% em 2022, enquanto a share católica caiu de 65,1% para 56,7%. Esse deslocamento contribui para que as igrejas evangélicas tenham ocupado espaço significativo na formação musical de novas gerações.
Entre na conversa da comunidade