- Ministérios evangélicos na Europa, incluindo o italiano Vite Trasformate, trabalham com mulheres e crianças traficadas para exploração sexual, adaptando as ações conforme cada país.
- Em Bologna, Itália, a prostituição de rua ocorre em um “limbo” legal, o que facilita a exploração e dificulta proteção às trabalhadoras, segundo Cristhina.
- O Vite Trasformate, criado em 2011 a partir de um projeto da igreja Nuova Vita, oferece apoio prático como acompanhamento médico, auxílio com documentação, encaminhamentos a abrigos e treinamento profissional.
- A atuação transatlântica se baseia na experiência de missionários norte-americanos, com redes que se estendem a cidades como Amsterdam, Roma, Napólis, Berlim e Atenas.
- Desafios incluem a diferenciação entre tráfico e trabalho sexual, necessidade de coordenação europeia e risco de vitimização das vítimas pelos serviços sociais; casos e debates históricos são citados para contextualizar a atuação.
Cristhina, uma colombiana que cresceu na Flórida, chegou a Bologna, na Itália, há mais de uma década para atuar com um grupo de apoio a prostitutas. Ela relata que, na época, a prostituição era visível em áreas suburbanas e bairros residenciais, muitas vezes em plena luz do dia.
Ao chegar, Cristhina já conhecia o trabalho voluntário realizado em Miami e decidiu ampliar a atuação para a Itália, ingressando no que era um programa de rua supervisionado pela igreja local Nuova Vita (Nova Vida). O objetivo era ouvir, acolher e oferecer uma saída para as mulheres vulneráveis.
Em 2011, o programa passou a se chamar Vite Trasformate (Vidas Transformadas) e se dedicou a mulheres e crianças exploradas sexualmente. A atuação ganhou suporte de missionários americanos, com treinamento recebido em projetos de fora da Itália.
Contexto legal e atuação na Europa
A migração do trabalho evangelico anti-tráfico ocorreu há cerca de duas décadas em cidades como Roma, Amsterdã, Napoli, Berlim e Atenas. Em cada país, as ações são ajustadas às leis locais sobre prostituição e solicitação, que variam bastante.
Na Alemanha, por exemplo, a prostituição é legalizada e regulamentada; na Suécia e na França adota-se o modelo nórdico, que pune o comprador. Em Lituânia, tanto a compra quanto a venda de sexo são crimes. Já na Itália, a situação é mais nebulosa: a venda de sexo é permitida, mas bordéis e a solicitação em espaços públicos são proibidos, criando uma zona cinzenta que facilita a exploração.
Desafios e estratégias de campo
Vite Trasformate atua oferecendo apoio prático: acompanhamento a consultas médicas, emissão de documentos, encaminhamentos para abrigos e capacitação para trabalho. Com a pandemia, o atendimento passou a ocorrer por telefone e meios digitais, alcançando novas populações, inclusive mulheres trans migrantes.
Ao mesmo tempo, projetos semelhantes no exterior reforçam a necessidade de coordenação europeia. Em Hungria, por exemplo, Set Free atua em quatro cidades com foco em educação em escolas e centros de cuidado, para prevenir o aliciamento de jovens. A organização opera em 14 países com mais de 55 projetos, conectando prevenção, educação e cuidado a sobreviventes.
Percepções, impactos e críticas
Especialistas questionam se algumas abordagens religiosas acabam confundindo tráfico com trabalho sexual voluntário, o que pode marginalizar profissionais do ramo. Cristhina afirma que o objetivo não é impor religião, e aponta que a casa de abrigo inaugurada em 2023 acolhe mulheres de diversas crenças.
Profissionais locais destacam o papel das redes de apoio na recuperação, ainda que reconheçam que a reconstrução de vidas após exploração é lenta e frágil, especialmente para mulheres mais velhas ou migrantes com sistemas pouco receptivos.
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