- O carnaval é apresentado como palco para o uso de reconhecimento facial na segurança pública, com governos locais anunciando a tecnologia como principal recurso da folia.
- Em Salvador, desde 2019 já se usou o sistema; foram monitoradas 2,9 milhões de pessoas e localizados 13 foragidos, com planos de 5 mil câmeras em 2026, incluindo 1.346 com reconhecimento facial e uso de drones.
- Juazeiro, no interior da Bahia, já instalou mais de cem câmeras e prendeu uma mulher com mandado em aberto por tentativa de homicídio, usado como justificativa de alto investimento.
- Em Pernambuco, são 325 câmeras, drones e reconhecimento facial, com Olinda recebendo 152 câmeras; Belo Horizonte também projeta uso de drones em grande volume.
- Em São Paulo, o Smart Sampa envolve mais de quarenta mil câmeras com custo mensal de R$ 9,8 milhões; há críticas sobre falhas, prisões indevidas e transparência, além de questões de proteção de dados.
- No Rio de Janeiro, governo estadual abriu licitação de cerca de R$ 2 bilhões para instalar mais de duzentas mil câmeras, ampliando o monitoramento para carnavais futuros, sob o argumento de segurança, mas com debates sobre eficácia e privacidade.
O carnaval de 2026 começa a ganhar contornos de debate público à medida que governos locais promovem o uso de reconhecimento facial como ferramenta central de segurança. A prática, que ganhou força desde Salvador em 2019, volta a ser apresentada como solução para monitorar multidões e evitar crimes durante as festividades. A divulgação é feita mesmo diante de críticas sobre eficácia e custos.
Relatórios oficiais destacam que a tecnologia tem sido adotada como eixo de estratégia de policiamento durante o período de folia. Em Salvador, por exemplo, o monitoramento envolveu milhões de pessoas no carnaval anterior, com a identificação de foragidos que adentraram o circuito. Em Juazeiro, o aparato de vigilância resultou na prisão de uma pessoa com mandado em aberto, uso que os organizadores apresentam como “sucesso” do sistema.
Panorama por estados
Em Pernambuco, o aparato de segurança soma câmeras, drones e reconhecimento facial em Olinda e na capital, com 325 dispositivos previstos para o carnaval. Em Belo Horizonte, a cidade planeja mais de 200 drones com monitoramento em 360 graus. No Rio de Janeiro, houve licitação de cerca de R$ 2 bilhões para ampliar o parque de câmeras, com previsão de uso em carnavais futuros.
Em São Paulo, o programa Smart Sampa envolve mais de 40 mil câmeras com reconhecimento facial, o que elevou o custo mensal para quase R$ 10 milhões. Entidades de fiscalização apontam falhas de condução e questionam a real relação entre as abordagens e a segurança pública. Organizações citam ainda dúvidas sobre transparência e proteção de dados.
Questões de dados e impactos
No fim de 2025, auditoria revelou falha no uso do sistema Córtex pela polícia do Rio de Janeiro, com milhões de CPFs usados para consultas indevidas. A ferramenta cruza dados de câmeras com diversos bancos de dados, levantando preocupações sobre privacidade e riscos de uso indevido. A pasta da Justiça discutiu a substituição gradual do sistema.
Pesquisadores ressaltam que o reconhecimento facial não atua apenas de forma neutra, levando a vieses raciais. Dados de 2019 indicaram que a maior parte das prisões associadas a essa tecnologia foi de pessoas negras, o que reforça criticamente o debate sobre discriminação.
Perspectivas e críticas
Especialistas alertam para o efeito de “solucionismo tecnológico”: a solução evita enfrentar causas estruturais da violência e transforma o espaço urbano em laboratório de vigilância. A crítica aponta que o gasto elevado não garante melhoria clara na segurança, enquanto a discussão sobre proteção de dados permanece restrita e pouco transparente.
Operadores públicos defendem que a presença de câmeras e drones amplia a resposta policial em eventos de grande circulação. Ainda assim, o debate sobre eficácia, custos e impactos sociais permanece aberto, com vozes pedindo avaliação independente dos resultados e de impactos na população.
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