- Trabalhadores alegam abuso, fraude de vistos e negligência médica durante a construção do maior templo hindu moderno fora da Índia, em Robbinsville, New Jersey (2015–2023).
- Dois trabalhadores teriam morrido de silicose, doença pulmonar causada pela inalação de pó de sílica, enquanto aguardavam transplante de pulmão; outros foram diagnosticados com tuberculose e bronquite crônica.
- Relatos descrevem jornadas de até noventa horas por semana, salários próximos de US$ 1,20 por hora, retirada de passaportes e falta de contato frequente com familiares.
- O templo nega as acusações e afirma cumprir normas de segurança, destacando orientação institucional e fornecimento de equipamentos de proteção individual.
- A Justiça dos EUA encerrou, sem acusações, a investigação criminal; a ação civil pode retomar, com demandas porvidas a trabalhadores e possíveis mudanças em políticas de vistos de religiosos.
O centro de Robbinsville, Nova Jersey, abriga o maior templo hindu moderno fora da Índia. Construído entre 2015 e 2023 pela organização Baps Swaminarayan Akshardham, o complexo de 185 acres é conhecido pela pedra trabalhada artesanalmente, trazida de Rajasthan.
Segundo relatos de trabalhadores, durante a construção houve denúncias de abuso, fraude de vistos e negligência médica. Ao menos dois operários teriam morrido de silicoses, doença pulmonar causada pela inalação de poeira de sílica, em casos que teriam ocorrido antes de aguardar transplante.
Os trabalhadores afirmam que muitos haviam chegado da Índia sob contratos de trabalho com jornadas de até 90 horas semanais e salários próximos de um dólar por hora, além de restrições de contato com familiares e retirada de passaportes. Havia relatos de acesso limitado a atendimento médico fora da rede do templo.
A defesa da Baps nega as acusações, destacando a existência de procedimentos de segurança e a oferta de assistência médica, moradia e passagens. A organização sustenta que a presença dos trabalhadores foi conhecida e autorizada por autoridades federais, estaduais e locais, e que o trabalho ocorreu sob o regime de voluntariado religioso autorizado pela lei norte-americana.
Dalits, grupo historicamente marginalizado na Índia, participou majoritariamente da mão de obra no local, chegando de Rajasthan para atuar na fase final da obra. Caminhos de denúncia indicam dificuldades de comunicação e acesso a proteção, além de questões de identificação com a fé e com o emprego.
Paralelamente, relatos médicos indicam que diversas pessoas foram expostas a poeira fina de sílica durante o corte de pedra, com registros de síndromes respiratórias que variam de silico-tuberculose a bronquite crônica. Em alguns casos, trabalhadores afirmaram que não receberam Equipamento de Proteção Individual adequado, como máscaras N95, e que a informação médica não foi plenamente explicada.
A Justiça Federal já havia intervindo no passado: em 2021, agentes federais removeram 90 trabalhadores após investigações sobre trabalho forçado sob a justificativa de voluntariado religioso. A investigação criminal foi encerrada pela Justiça em setembro, sem acusações formais, e o caso civil pode prosseguir.
Especialistas destacam que a exploração de Dalits possui raízes históricas e que normas de proteção ao trabalho não são plenamente aplicadas, especialmente em programas de reabilitação para trabalhadores resgatados. Organizações de direitos humanos apontam que a situação é compatível com casos de exploração contemporânea, apesar da natureza religiosa das atividades.
Agora, o processo civil contra a Baps, pausado durante a investigação criminal, pode retornar. Trabalhadores buscam reparação financeira por danos e por condições de trabalho, bem como mudanças regulatórias que dificultem a entrada de trabalhadores em regime de visto R-1 para serviços religiosos.
No âmbito institucional, autoridades têm sido chamadas a esclarecer responsabilidades de empregadores religiosos, enquanto a comunidade local observa a evolução do caso sem fissuras na cobertura pública. O tema envolve saúde ocupacional, direitos trabalhistas e o uso de vistos para atividades religiosas.
A defesa da organização ressalta que o foco do projeto foi a expressão religiosa e que as operações contaram com supervisão adequada, enfatizando que a vista de voluntários é parte de uma prática antiga do culto hindu. A história continua em apuração, com novas informações que podem impactar o andamento jurídico e as medidas de proteção aos trabalhadores.
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