- Kamara, em trabalho de parto obstrutivo no hospital materno mais movimentado de Freetown, teve a cesárea atrasada por mais de duas horas por falta de suturas, anestesia e fluidos intravenosos.
- O bebê nasceu em sofrimento, recebeu oxigênio e foi levado para a unidade de cuidados especiais; mãe e filho receberam alta dias depois.
- Sierra Leone é um dos países mais pobres do mundo e depende fortemente de ajuda externa para saúde; em 2023 recebeu cerca de 500 milhões de dólares em assistência ao desenvolvimento.
- A suspensão de projetos financiados pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, anunciada no fim de janeiro de 2025, deixou 83% dos programas cancelados até março; o Reino Unido reduziu a doação de 0,5% para 0,3% do PIB.
- O Ministério da Saúde aponta que ainda busca realinhar recursos e incentivar financiamentos inovadores, enquanto o presidente lança uma campanha de 300 dias para fortalecer cuidados durante a gravidez e o parto, com poucos detalhes públicos.
Sonita Kamara enfrenta trabalho de parto obstrutivo em Freetown, Sierra Leoa. O bebê demonstra sofrimento; urgência de cesárea é prevista em 30 minutos. O hospital carece de itens básicos, como suturas, anestesia e fluidos intravenosos.
A família de Kamara procura os insumos na cidade, sem sucesso imediato. Após mais de duas horas, o procedimento ocorre. O bebê Kelvin nasce com necessidade de oxigênio e é levado para a unidad de cuidados especiais, próxima ao Ola During Children’s Hospital.
O país, com cerca de 9 milhões de habitantes, é um dos mais pobres do mundo e depende fortemente de ajuda externa para serviços de saúde. Em 2023, a assistência oficial ao desenvolvimento atingiu cerca de 500 milhões de dólares, com fluxos que já chegaram a mais de 10% do PIB.
A mudança no cenário de ajuda internacional ganhou impulso com cortes promovidos pelos EUA e pelo Reino Unido. Em 2025, várias ações de assistência foram suspensas ou reduzidas, impactando programas de saúde materna e infantil, incluindo a rede Saving Lives in Sierra Leone.
Mudanças no financiamento e impactos
O Saving Lives, criado em 2016 com financiamento do Reino Unido, financiou unidades de cuidados neonatais e treinamento de parte da rede de saúde. Em 2025, o pacote foi reduzido drasticamente, com consequências ainda não totalmente medidas pela saúde pública.
A redução de recursos também está ligada a negociações estrangeiras. O governo britânico sinaliza cortes de orçamento, enquanto o governo norte-americano destaca acordos bilaterais sob a estratégia de saúde global, com foco em sistemas mais resilientes.
Especialistas destacam que a queda de verbas pode ampliar a mortalidade em unidades de cuidados neonatais e afetar serviços de saúde reprodutiva. Médicos locais afirmam que a área está já sobrecarregada e que cortes acelerados pioram a situação.
Para o Ministério da Saúde, a chave é realinhar fontes de financiamento e promover inovações em financiamento da saúde. Países parceiros continuam em diálogo, mas ainda não há respostas definitivas sobre aportes futuros.
A administração britânica e a embaixada dos EUA mantêm, segundo fontes ouvidas pela reportagem, conversas com autoridades de Freetown, sem anunciar valores ou prazos. A expectativa é de que iniciativas futuras busquem reduzir a dependência externa.
O panorama aponta que, sem novas receitas ou reformas estruturais, as melhorias alcançadas na saúde materna correm risco de não se consolidar. A prioridade, segundo autoridades, é manter a continuidade de cuidado para gestantes e recém-nascidos, mesmo diante de contingências orçamentárias.
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