- Regulamentos impõem que mulheres doentes ou feridas sigam código de vestimenta, sejam acompanhadas por um guardião masculino e recebam atendimento de médicos homens, segundo a relatora especial da ONU sobre o Afeganistão.
- Mulheres costumam ter atendimento emergencial negado sem a presença de um guardião masculino, afirma o relatório apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.
- Em um caso citado, uma mulher deu à luz sozinha na porta do hospital por não estar acompanhada; outra perdeu o filho de quatro anos por não poder viajar sozinha com ele.
- O relatório indica que as políticas representam um sistema institucionalizado de discriminação de gênero que tira autonomia de mulheres e meninas sobre seus corpos, saúde e futuro.
- Com menos médicas no país e com a proibição de educação médica para meninas, a restrição pode reduzir ainda mais o atendimento às pacientes do sexo feminino, alertam especialistas.
O que houve: um relatório da ONU aponta que restrições impostas pelo regime talibã afetam o atendimento de saúde de mulheres e seus filhos, chegando a negar emergências em alguns casos. O relato foi apresentado na ONU na semana e divulgado nesta sexta-feira.
Quem está envolvido: o Relator Especial para Afeganistão, Richard Bennett, que descreve práticas discriminatórias institucionalizadas, e autoridades talibãs que dizem respeitar os direitos das mulheres segundo a sua interpretação da lei islâmica. Também contribuiu a ex-ministra da saúde Suraya Dalil, destacando riscos crescentes para mortalidade materna e infantil.
Quando e onde: as observações foram apresentadas em Genebra, na Suíça, nesta sexta-feira. O texto foi elaborado a partir de um relatório submetido ao Conselho de Direitos Humanos da ONU neste mês.
Como e por quê: segundo Bennett, mulheres precisam seguir código de vestimenta, ter acompanhante masculino e serem atendidas apenas por médicos homens. Serviços de ambulância podem ser negados sem a presença de um guardião masculino, comprometendo emergências. Em um caso citado, uma gestante precisou dar à luz na porta do hospital sem acompanhante. Outro episódio relatou a perda do filho de uma mulher devido à impossibilidade de viajar sozinha com ele.
Impacto no sistema de saúde: o relatório observa que, em 2024, cerca de um quarto dos trabalhadores de saúde eram mulheres. A proibição de educação médica para meninas fechou o fluxo de profissionais, reduzindo futuras pacientes femininas e ampliando a segregação de gênero na prática clínica. Bennett afirma que tais políticas colocam o sistema de saúde em risco e causam sofrimento evitável, doença e mortes.
Resposta das autoridades: Bennett informou ter enviado o relatório às autoridades talibãs, solicitando comentários, mas não obteve retorno. O regime afirma respeitar direitos das mulheres conforme sua leitura da lei islâmica. Dalil acrescenta preocupação com aumento projetado de mortalidade materna e infantil devido à restrição da força de trabalho em saúde.
Fontes e documentos: informações compiladas por Emma Farge, com edição de Andrew Heavens.
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