- Luxemburgo, país de alto custo de vida, apresenta 13,4% de risco de pobreza na população, o maior da União Europeia.
- Aproximadamente 230 mil trabalhadores são fronteiriços de Bélgica, França e Alemanha, representando quase metade da força de trabalho em um país com cerca de 680 mil habitantes.
- O comedor social La voz de la calle atende, em média, 450 pessoas por dia; as refeições anuais passaram de cerca de 50 mil em 2015 para mais de 100 mil hoje.
- A elevada moradia e os aluguéis caros explicam a desigualdade; entre os beneficiários, há trabalhadores pobres, mães solo e aposentados com pensões insuficientes.
- Debates sobre mendicidade e políticas de habitação mostram o esforço do governo para ampliar habitação social, enquanto críticos dizem que medidas contra mendicidade criminalizam a pobreza.
Luxemburgo convive com uma dualidade marcada entre salários elevados e custo de vida elevado, especialmente com aluguel. O país recebe trabalhadores de fronteira que buscam remuneração maior, enquanto parte da população enfrenta dificuldades para morar e viver com dignidade.
Todos os dias, dezenas de milhares cruzam a fronteira para trabalhar no país centro-europeu. Enquanto isso, há quem dependa da ajuda social para sobreviver, como evidenciam relatos em um comedor social administrado pela ONG La voix de la street (Stëmm vun der Strooss).
Entre os frequentadores está Madame Moufida, 67 anos, de nacionalidade francesa. Ela relata que a pensão está retida por questões burocráticas e que vive com 300 euros mensais, dormindo em um albergue para idosos. O serviço social atende ainda a pessoas que não pagam pelos itens de alimentação.
Outra história vem da venezuelana Jhoana Rojas, 46 anos, que trabalha como faxineira. Ela mora com o marido e o filho na França, após cruzar a fronteira. Rojas afirma que o emprego é próximo, o que ajuda a reduzir gastos com alimentação, mas não há sobra no orçamento.
O custo simbólico de 50 centavos pela refeição serve para a avaliação do serviço, explica Bob Ritz, porta-voz da ONG. Quem não tem dinheiro recebe alimentação normalmente. O complexo social também oferece lavanderia, roupas via doações, duchas, orientação médica e assistência social.
No cardápio de quinta-feira chuvosa, arroz com frango ou salsichas compõem o almoço. Entre os usuários, há pessoas sem moradia, trabalhadores com diferentes contratos e quem recebe salário mínimo. Um trabalhador de repartição, natural de Madrid, comenta a realidade de vida atual, diferente da expectativa anterior.
Em média, 450 pessoas são atendidas por dia no comedor da ONG. O trabalho da organização evidencia uma mudança de perfil: há 10 anos predominavam moradores de rua; hoje crescem os trabalhadores pobres, incluindo mães solo e aposentados cuja renda não cobre o custo de vida luxemburguês.
A relação entre custo de vida e renda elevada ajuda a explicar a composição da força de trabalho. Cerca de 230 mil trabalhadores, 47% da força laboral num país de 680 mil habitantes, são fronteiriços de Bélgica, França e Alemanha. Um número crescente de luxemburgueses também é empurrado pela alta demanda por habitação.
Luxemburgo apresenta o maior risco de pobreza entre os estados da UE, com 13,4% da população ameaçada. A desigualdade convive com salários altos em setores como banca e fundos de investimento. A habitação é apontada como principal fator desestabilizador, conforme estudo recente da Eurofound.
Especialistas destacam que a classe média europeia encolhe, elevando o risco de apoio a ideias extremistas. O tema da habitação é visto como desafio comum à União, exigindo ações coordenadas para reduzir a disparidade entre renda e aluguel.
Medidas locais buscam ampliar a oferta de moradia social para reduzir o peso dos aluguéis sobre famílias e trabalhadores. A agenda social do governo contempla ações para evitar a migração de trabalhadores para outros países devido aos custos habitacionais.
Entre relatos de pessoas que migraram para Luxemburgo em busca de oportunidade e hoje enfrentam dificuldades, há outros que destacam a importância de serviços sociais que ajudam a manter a dignidade. As dificuldades de moradia continuam sendo o principal fator de vulnerabilidade.
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