- A reserva Tswalu Kalahari, na África do Sul, atua há décadas para rewilding (restauração da vida selvagem) e virou refúgio para espécies ameaçadas, incluindo chitas, antílopes e cães selvagens.
- O projeto também busca armazenar carbono no solo, com parcerias como a Rewild Capital; solos podem acumular mais carbono do que florestas, embora seja menos rápido de monitorar.
- O regime de distúrbios naturais — presença de predadores como cães selvagens, leopardos e leões — orienta o manejo de herbívoros, visando equilibrar biodiversidade, produção de alimento para o solo e estoque de carbono.
- A iniciativa já emitiu mais de trinta e quatro mil créditos de carbono, com expectativa de mais de duzentos e setenta e cinco mil créditos ao todo; a reserva é a primeira privada da África do Sul a creditar carbono por conservação.
- Cientistas destacam que os resultados ainda são incertos e dependem de monitoramento contínuo; alguns estudos mostram que nem todas as rewildings aumentam o carbono, exigindo avaliação cuidadosa em diferentes contextos.
A reserva Tswalu Kalahari, na África do Sul, convive com predadores como cães selvagens e leões, além de girafas e antílopes, graças a décadas de restauração ecossistêmica. O foco atual é armazenar carbono no solo por meio da rewilding, usando a presença de animais para impulsionar processos biogeoquímicos.
Localizada na região desértica da Kalahari, a reserva ocupa cerca de 118 mil hectares. A meta é aproximar a paisagem ao regime de perturbação natural, em que grandes herbívoros movem-se pelo terreno, contribuindo para a saúde do solo e a produtividade da vegetação. O projeto é conduzido com apoio de ciência e parcerias privadas.
A iniciativa, que envolve a empresa Rewild Capital, pretende demonstrar que créditos de carbono podem financiar restauração sem depender apenas de doações. Atualmente, Tswalu já contabiliza mais de 34 mil créditos validados e estima gerar mais de 275 mil ao total, segundo a organização de geração de créditos Credible Carbon.
Como funciona o conceito de reposição
O objetivo é repor padrões de pastagem com espécies nativas, desde gnus a antílopes, para recriar a dinâmica de pastoreio que existia no passado. Pesquisas discutem como a deposição de esterco e o manejo dos herbívoros influenciam a ciclagem de carbono no solo, promovendo armazenamento de carbono estável a longo prazo.
Nos estudos, o impacto do trânsito de grandes rebanhos é analisado em relação ao solo, à microbiota e à decomposição de matéria orgânica. Observa-se que animais que pisoteiam o detrito vegetal aceleram transformações químicas benéficas ao carbono do solo, enquanto sistemas sem pastagem não alcançam o mesmo nível de reserva.
Predadores, equilíbrio e gestão
A presença de predadores como cães selvagens, leões e leopardos regula o movimento dos herbívoros, contribuindo para a heterogeneidade do ecossistema. A gestão do território tenta manter o equilíbrio entre densidade de animais e saúde ambiental, evitando efeitos negativos na vegetação.
Wendy Panaino, ecologista da reserva, destaca que o objetivo é aumentar a resiliência frente às mudanças climáticas, rampando a variabilidade de chuvas. A ideia é manter o ecossistema o mais íntegro possível, com ajustes apenas quando necessários.
Desafios científicos e viabilidade
Pesquisadores indicam que não há consenso definitivo sobre o impacto universal da rewilding no carbono do solo. Estudos indicam cenários variados, em que alguns ecossistemas respondem positivamente e outros apresentam resultados diferentes. A efetividade depende de monitoramento contínuo e de contextos específicos.
Sumanta Bagchi, ecologista indiano, aponta que nem todo carbono é igual e que a presença de animais selvagens tende a favorecer o armazenamento de carbono no solo, especialmente quando comparada a sistemas com pecuária intensiva. Ainda assim, fatores como uso de antibióticos em animais podem afetar a microbiota do solo.
Objetivo estratégico e próximos passos
O projeto em Tswalu é apresentado como um “proof of concept” para créditos de carbono associáveis à restauração natural. A viabilidade depende de medição constante do carbono armazenado e da continuidade de avaliações científicas. A meta é ampliar o entendimento sobre como restauração e conservação podem caminhar lado a lado.
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