- A União Europeia adiou pela segunda vez a implementação do EUDR, medida considerada política e não técnica, pressionada por setores industriais e alguns países que resistem às regras de rastreabilidade para evitar desmatamento.
- A coordenadora alemã Delara Burkhardt, braço-direito do grupo Socialistas e Democratas, afirma que quem empurra o adiamento são atores que criticavam o EUDR desde o início, favorecendo o status quo.
- Países e setores oposicionistas incluem Malásia, Indonésia, além de indústrias de óleo de palma e borracha; nos EUA há resistência principalmente em relação a soja, carne bovina e madeira.
- O apoio de grandes empresas de chocolate e, especialmente, do setor de cacau, é visto como reflexo de interesse em cadeias de suprimento mais transparentes e regras iguais para todos os participantes do mercado europeu.
- Burkhardt alerta que os adiantamentos criam incerteza, prejudicam investimentos em rastreabilidade e podem condenar a lei a não entrar em vigor, agravando riscos ambientais e sociais ligados ao desmatamento.
A agenda ambiental europeia enfrenta novo atraso. A EUDR, lei para impedir que produtos ligados à derrubada de florestas entrem no mercado único da UE, ganhou apoio no Parlamento em 2023, mas teve sucessivos adiamentos. A mudança ocorreu após a eleição de 2024, que empurrou o Legislativo a uma linha mais conservadora e a flexibilizar requisitos, segundo analistas e participantes do processo. O atraso atual repete o adiamento anterior e levanta dúvidas sobre a implementação.
Conforme o debate avançou, ficou claro que o atraso não é técnico, mas político. Parlamentares apontam pressão de setores econômicos que operam com cadeias de suprimento ligadas à mineração, à madeira e à agroindústria. Especialistas indicam que o adiamento favorece quem já não está preparado para cumprir as regras, reduzindo a ambição climática da União Europeia.
Entre os setores adversos, destacam-se as indústrias de palmeira, borracha e oleaginosas, além de países produtores que resistem a padrões europeus de rastreabilidade. Os EUA também foram citados como fonte de críticas, principalmente em relação a soja, carne bovina e madeira. A oposição aparece, ainda, em debates sobre custos e complexidade de implantação.
Didática sobre o papel da EUDR, a deputada Delara Burkhardt, da bancada social-democrata, apresentou que a responsabilização das empresas europeias pela origem de seus insumos é central para frear o desmatamento. Segundo ela, a lei busca transparência em cadeias de suprimentos desde o ponto de origem até o consumidor.
Em entrevista concedida no Parlamento em Estrasburgo, Burkhardt explicou que as mudanças recentes não são técnicas, mas políticas. Ela afirmou que interesses de setores que já estavam contrários à norma influenciaram os adiamentos e criaram um ambiente de incerteza para as empresas investidoras em conformidade.
A deputada ressaltou que a incerteza desalinha planos de negócios, aumenta custos com tecnologia de rastreabilidade e desestimula investimentos. Segundo ela, quem já investiu pode sair em desvantagem se a regulação não entrar em vigor de forma estável.
Burkhardt apontou que o regulamento pode favorecer a proteção de florestas, a segurança de comunidades locais e a integridade de produtores menores. Ela destacou que a EUDR não é apenas ambiental, mas também social, ao enfrentar violações de direitos de terras em alguns casos.
Quanto ao apoio de grandes empresas de chocolate, a deputada sustenta que, em cadeias de consumo próximas ao público, há maior aderência a normas de sustentabilidade. A regulação, segundo ela, cria um piso comum e facilita a implementação em cadeias complexas, como a do cacau, caracterizada por muitos pequenos produtores.
Sobre o cenário internacional, Burkhardt indicou que, apesar de receios de países parceiros, a lógica da UE permanece: exigir rastreabilidade para evitar desmatamento no fornecimento de commodities destinadas ao mercado europeu. A crítica mira, sobretudo, produtos de soja, carne e madeira importados.
A liderança na negociação, dentro do grupo do Partido Social-Democrata, é vista pela deputada como essencial para manter o curso da legislação. Ela enfatizou que a pressão maior recai sobre agricultores e indústria florestal, que temem custos adicionais.
Questionada sobre o que está em risco, Burkhardt destacou que o adiamento repetido pode enterrar a EUDR. A incerteza freia investimentos já realizados em conformidade, além de desestimular novos gastos com ferramentas digitais de rastreabilidade.
A deputada concluiu que a resistência não diminui a necessidade de ações climáticas urgentes. Mesmo diante de críticas, ela defende seguir adiante com a EUDR para proteger florestas, garantir o direito de comunidades locais e promover cadeias de suprimentos mais sustentáveis na UE.
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