- Estudo publicado na Nature Ecology & Evolution mostra que a riqueza de espécies de árvores na Amazônia e nos Andes varia por subregião, com ganhos e perdas ao longo de mais de quarenta anos, com dados de quarenta e seis parcelas em dez países.
- No conjunto, não houve mudança significativa na região, mas houve declínio na central dos Andes, no Escudo da Guiana e na Amazônia central‑leste; houve ganho no norte dos Andes e na Amazônia ocidental, e no sul não houve alteração significativa.
- A maioria das áreas aqueceu ao longo do tempo, com mais de noventa por cento das parcelas registrando aquecimento; a sazonalidade das chuvas teve efeito mais pronunciado que a temperatura em várias regiões.
- A integridade do mosaico florestal (grau de cobertura ao redor) foi associada a tendências de aumento de riqueza local; florestas mais degradadas tendem a perder espécies.
- Pesquisadores destacam que a perda de diversidade pode afetar serviços ecossistêmicos, como regulação do clima e armazenamento de carbono, e ressaltam a importância de conectividade entre áreas e conservação para mitigar impactos.
O aquecimento global está alterando a diversidade de árvores entre a Amazônia e os Andes, segundo estudo publicado na Nature Ecology & Evolution. A pesquisa analisou mais de 40 anos de dados de diversidade de árvores em 406 parcelas repartidas por 10 países.
Apesar de não ter havido mudança geral no total de espécies entre as duas regiões, áreas distintas apresentaram trajetórias diferentes. As perdas de richesse foram observadas no central Andes, no Maciço de Guiana e na Amazônia central-oriental; ganhos ocorreram no norte dos Andes e na Amazônia ocidental, enquanto a Amazônia sul apresentou variação não significativa.
O estudo combinou dados de campo com indicadores climáticos, revelando que a riqueza de espécies diminuiu em 203 parcelas e aumentou em 146. A tendência global, ao considerar toda a área, aparece estável, mas isso decorre da soma de regiões com comportamento diferente e de diferentes períodos de monitoramento.
Fatores climáticos e de paisagem
A equipe avaliou temperatura máxima, precipitação total e a sazonalidade das chuvas. Em geral, áreas quentes, secas e mais sazonais registraram redução de espécies, já florestas mais densas apresentaram ganho de riqueza. Entre as últimas décadas, mais de 90% das parcelas aqueceram em média.
A sazonalidade de precipitação, que aumentou em 88% das parcelas, mostrou ter peso maior que a temperatura na definição da riqueza. Em algumas áreas, a temperatura foi o principal fator, mas em outras, a variação de chuva se mostrou mais determinante.
A densidade de árvores por parcela também influenciou a riqueza, com maior número de árvores associando-se a maior diversidade local. A fragmentação e a vulnerabilidade a fogo tendem a reduzir a riqueza, conforme o estudo.
Conservação e fluxo de espécies
Os autores destacam que manter a integridade da paisagem favorece a riqueza local, ao contrário do que ocorre em áreas mais degradadas. Pesquisadores reconhecem que padrões observados são complexos e variam entre subregiões.
O norte dos Andes pode atuar como refúgio para espécies deslocadas pela elevação da temperatura na Amazônia. A região é mais úmida e facilita migração de espécies, ao passo que o centro-oeste andino é mais seco e sazonal, dificultando esse movimento.
A pesquisa enfatiza a necessidade de conectividade entre florestas para ampliar a recruitação de espécies, bem como a proteção de áreas que envolvem comunidades locais e a melhoria de corredores ecológicos.
Implicações
Embora o estudo não tenha avaliado espécies específicas nem impactos diretos nos serviços ecossistêmicos, os autores apontam que a perda de diversidade pode afetar regulação do clima, captura de carbono e ciclos hidrológicos. A preservação de áreas protegidas e a prevenção do desmatamento aparecem como estratégias viáveis para mitigar efeitos.
A equipe recomenda mais pesquisas para entender a taxonomia e os impactos ecológicos, incluindo redes tróficas e microrganismos associados às folhas. O trabalho reforça a importância de abordagens integradas entre Amazônia e Andes para a conservação.
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