- O Moratório da Soja da Amazônia, usado há quase duas décadas para impedir a comercialização de soja ligada ao desmatamento pós-2008, está sendo enfraquecido e pode colapsar.
- Se o acordo cair, especialistas estimam que o desmatamento na Amazônia pode subir cerca de 30% nas próximas décadas, acelerando crises climáticas e de biodiversidade.
- O enfraquecimento ocorre junto a atrasos em regulações de desmatamento da União Europeia e a acordos comerciais que ampliam exportações sem salvaguardas adequadas.
- Indígenas protestam em Santarém, Pará, contra decreto federal que permitiria concessões privadas e dragagem ampliada em vias navegáveis da Amazônia sem o consentimento prévio, livre e informado.
- Grandes bancos atuam financiando o setor de soja no Brasil, apoiando cadeias de suprimento ligadas à expansão agrícola; especialistas pedem condicionamento de crédito ao cumprimento do moratório e respeito aos direitos indígenas.
O Moratório da Soja na Amazônia, uma das principais barreiras contra a expansão agrícola, corre risco de colapso. Cientistas alertam que o desmatamento contínuo pode levar a maior floresta do mundo a um ponto de inflexão, virando uma savana degradada e propensa a incêndios que emitem mais carbono do que armazenam.
Durante quase 20 anos, o Moratório da Soja impediu grandes tradings de comprar soja cultivada em áreas desmatadas após 2008, rompendo o elo entre expansão agrícola e destruição da floresta. A interrupção desse pacto pode desfazer progressos já alcançados.
Nos últimos meses, o enfraquecimento das regras ocorre em meio a atrasos na regulação de desmatamento da União Europeia e a acordos comerciais, como o Mercosul-EU, que prometem ampliar exportações agropecuárias sem salvaguardas adequadas. Juntas, essas mudanças sinalizam que limites ambientais podem ser negociados.
No terreno, os sinais já aparecem. Indígenas protestam em uma unidade da Cargill em Santarém, no Pará, contra um decreto federal que autorizaria a navegação de vias aquáticas amazônicas, incluindo o Tapajós, para concessões privadas e dragagem ampliada sem o consentimento livre, prévio e informado, exigido por lei e por convenções internacionais.
A mobilização ocorreu na área da empresa símbolo do modelo de exportação agrícola. Os manifestantes afirmam que ampliar corredores de commodities pressiona territórios indígenas e ameaça uma das regiões mais biodiversas do planeta, intensificando o tráfego de soja e milho entre a floresta e exportações.
A imprensa aponta que as decisões atuais não envolvem apenas o Brasil ou traders isoladamente. Bancos globais investiram dezenas de bilhões de dólares no setor de soja brasileiro, financiando cadeias que vão de fazendas amazônicas a prateleiras de supermercados na Europa, China e América do Norte. A adesão aos princípios do moratório passou a ser vista como medida de credibilidade.
A ligação entre financiamento e proteção ambiental fica evidente. Empresas que respeitam as salvaguardas e os direitos indígenas tendem a manter acesso a capital, enquanto aquelas que descumprem ou se beneficiam de projetos que colocam florestas em risco podem enfrentar restrições de financiamento.
Essa situação demanda liderança. Instituições financeiras devem tornar o acesso ao capital condicionado ao cumprimento do moratório, com rastreabilidade plena, e com tolerância zero à destruição de florestas na Amazônia. Também é necessária comprovação de respeito ao direito ao FPIC em projetos de infraestrutura de exportação que atravessem territórios indígenas.
O Moratório da Soja mostrou que iniciativas de mercado podem proteger a natureza quando o lucro caminha com a responsabilidade. Permitir o colapso do acordo enviaria um recado preocupante de que acordos ambientais bem-sucedidos são descartáveis diante da pressão setorial.
Líderes indígenas reunidos em Santarém lembram que a Amazônia não é um conceito abstrato nem um item de balanço comercial. É moradia para milhares de pessoas, base da estabilidade climática global e indispensável ao futuro comum.
O momento exige que as instituições financeiras adotem critérios rigorosos para continuidade de crédito a projetos que respeitem o moratório e os direitos das comunidades locais. Sem essa atuação, a proteção da floresta fica mais fragilizada.
O apelo é claro: bancos devem agir agora, antes que danos irreversíveis se instalem. A proteção das áreas de floresta e dos direitos de seus habitantes depende de decisões responsáveis no mundo financeiro.
Ginger Cassady, diretora executiva da Rainforest Action Network, reforça a urgência dessa atuação. A interpretação neutra de riscos ambientais deve guiar investimentos e apoiar soluções sustentáveis em toda a cadeia da soja.
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