- Pescadores de Thiruvananthapuram, em Kerala, libertaram uma baleia-juba presa numa rede kambavala após cerca de trinta minutos de trabalho.
- O ato se insere num movimento de conservação na costa oeste da Índia, iniciado há mais de duas décadas com a campanha Save the Whale Shark, apoiada pela Wildlife Trust of India e pela International Fund for Animal Welfare.
- Em Kerala, as redes kambavala são usadas para capturar peixes pequenos, mas podem prender baleias-jubas; a entidade de conservação remunera a rede danificada em vinte e cinco mil rúpias.
- Ao longo de mais de vinte anos, mais de mil baleias-jub já foram resgatadas e liberadas na costa oeste, envolvendo estados como Gujarat, Maharashtra, Goa, Karnataka, Kerala e Lakshadweep.
- Desafios persistem: a baleia-juba é species ameaçada globalmente e a compensação nem sempre cobre custos; propõe-se maior reconhecimento aos pescadores como parceiros, com seguridade social, treinamento e potencial de ecoturismo.
Foi registrado um resgate de baleias-vasca (whale sharks) em praias da costa de Kerala, no sudoeste da Índia, quando mergulhadores amadores, acompanhados por pescadores locais, libertaram um grande exemplar preso em redes. A operação ocorreu numa manhã de março, em Thiruvananthapuram, capital do estado, após o animal ficar enredado na estrutura de kambavala. Os pescadores optaram pela libertação mesmo diante do risco de violar a rede, que representaria perdas financeiras significativas.
Ajit Shanghumukhom, representante da comunidade pesqueira e voluntário treinado pela Wildlife Trust of India (WTI), liderou a decisão de agir. Por cerca de 30 minutos, a equipe cortou a rede seção por seção com facas e cordas. O animal conseguiu se libertar, causando alívio entre os presentes e demonstrando um novo comportamento de manejo sustentável das redes locais.
A história recente de Kerala se conecta a uma transformação iniciada há mais de duas décadas na Índia ocidental, onde o resgate de baleias-vascas passou a ocorrer com frequência. Em 2001, a conservação recebeu apoio institucional, com a inclusão da espécie no Schedule I da Lei de Proteção da Vida Selvagem, equiparando-a a espécies como o tigre. A iniciativa contou com o impulso de WT I, IFAW (Fundação Internacional para Bem-Estar Animal) e campanhas de conscientização.
Desde então, milhares de baleias-vascas já foram salvas e devolvidas ao mar ao longo da costa ocidental, incluindo Gujarat, Maharashtra, Goa, Karnataka, Kerala e Lakshadweep. Em alto-mar, os pescadores quebram as redes para libertar os animais, com o apoio de uma rede de resgate que também remunera parte das perdas com uma compensação.
No litoral de Kerala, a prática do kambavala — redes triangulares entre bambu — tornou-se um dilema: atraem peixes, mas podem capturar baleias, golfinhos e arraias durante as marés altas. Quando um animal fica preso, a equipe de resgate verifica o salvamento com fotos ou vídeos e paga 25 mil rúpias por rede danificada, garantindo parte do custo da operação. O objetivo é manter a renda dos pescadores enquanto se protege a vida marinha.
Liderados por Shanghumukhom, laboratórios de treinamento da WTI ajudam pescadores e jovens das comunidades costeiras a disentanger animais com segurança. A mudança de comportamento é clara: agora muitas equipes avisam com antecedência sobre a presença de baleias, e as ações ocorrem diretamente no mar, sem levar o animal para a praia.
A atuação se expandiu para Lakshadweep, arquipélago onde recifes e áreas de alimentação favorecem a presença de baleias-vascas. Ao longo do litoral ocidental, escolas, cooperativas de pesca e grupos de mulheres discutem ética oceânica, enquanto pescadores jovens registram e compartilham resgates nas redes sociais.
Especialistas destacam que a conservação precisa acompanhar a remuneração aos pescadores. Alguns afirmam que 25 mil rúpias não cobrem completamente o custo de redes danificadas ou do tempo dedicado aos resgates. Há propostas para ampliar benefícios, incluir os pescadores em programas de ciência cidadã e reconhecer o trabalho como parte da governança marinha local.
O movimento, segundo a comunidade científica, ainda enfrenta desafios: a baleia-vasca continua classificada como ameaçada globalmente, sujeita a mudanças climáticas, colisões com navios e poluição. Mesmo assim, a cooperação entre pescadores, organizações não governamentais e autoridades tem fortalecido um canal contínuo de proteção entre Gujarat, Kerala e Lakshadweep.
Entre os protagonistas, Shanghumukhom descreve a transformação pessoal ao longo de anos dedicados a salvar baleias. Ele e colegas ajudam a treinar redes de resgate, promovem campanhas educativas em escolas e participam de atividades que substituem a visão de pesca predatória pela visão de guardiões do mar.
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