- Estudo publicado na Nature Sustainability mostra que a conservação baseada na comunidade para o pirarucu, nas lagoas oxbow do rio Juruá, amplia a conectividade entre áreas alagadas e florestas de planície.
- Guardas comunitários patrulham, confiscam equipamentos de pesca ilegal e denunciam atividades; tudo sem remuneração, o que gera custos para alimentação e suprimentos e afastamento do trabalho.
- A proteção das lagoas resulta em uma área de proteção de várzea quase oito vezes maior do que as lagoas, e até 36 vezes quando consideradas as inundações sazonais; a proteção também abrange florestas altas dezenas de vezes maiores.
- O custo médio para defender as lagoas é de $0,95 por hectare por ano; se os guardas fossem pagos, o custo subiria para aproximadamente $5,30 a $5,40 por hectare por ano.
- Pesquisadores defendem financiamento por pagamentos por serviços ambientais (PES) com gestão transparente; o envolvimento de mulheres e jovens aumenta, fortalecendo a gestão comunitária.
Diante das comunidades ribeirinhas da Amazônia brasileira, pesquisadores apontam que a conservação baseada na participação local tem impactos positivos, mas também custos significativos. Um estudo publicado na Nature Sustainability avaliou a co-gerência de pirarucu em áreas de proteção no baixo Juruá, afluente do Amazonas.
A pesquisa acompanhou 14 comunidades rurais que monitoram 96 lagoas oxbow ao longo do rio Juruá. As equipes atuam de forma volunteer, patrulham durante a estação seca e confiscam equipamentos de pesca predatória para defender o pirarucu, espécie-chave para a segurança alimentar local.
O estudo mostra que a proteção vai além das lagoas: o manejo comunitário aumenta a conectividade ecológica entre áreas alagadas e áreas de terra firme. Ao restringir o acesso de terceiros, há benefícios para biodiversidade e sustento familiar, com impactos positivos em diferentes escalas geográficas.
A amostra aponta que cada comunidade protege uma área de planície de inundação quase 86 vezes maior que as lagoas isoladas. A proteção de áreas ribeirinhas também beneficia florestas de terra firme em escala similar, fortalecendo redes ecológicas regionais.
Segundo os pesquisadores, o objetivo é preservar biodiversidade e meios de subsistência locais por meio de conhecimento tradicional aliado à ciência. A co-gerência facilita ações coletivas que envolvem moradores, pesquisadores e órgãos governamentais.
A pesquisa destaca o custo financeiro do esforço: as famílias arcariam com despesas de alimentação, suprimentos e patrolas, sem remuneração. O custo médio de proteção foi estimado em 0,95 dólar por hectare por ano, para um cenário sem pagamento a guardas.
Caso dois guardas recebessem salário baseado no piso local, o custo subiria para 5,30 dólares por hectare por ano; com salário mínimo brasileiro, 5,40 dólares por hectare. Os valores variam conforme o modelo de remuneração adotado.
Para cobrir essas despesas, o estudo sugere pagamentos por serviços ambientais (PES) diretos às comunidades, com gestão local dos recursos. Em 2025, durante a COP30, autoridades discutiram pilotos de PES para distribuir fundos de forma transparente e justa.
Coautora Ana Carla Rodrigues ressalta que a proteção comunitária pode ampliar a conectividade entre ambientes aquáticos e terrestres, fortalecendo redes ecológicas. A experiência demonstra que conhecimentos tradicionais também fortalecem a gestão ambiental.
O estudo também aponta ganhos sociais, com maior participação de mulheres na gestão pesqueira, em especial nas etapas de contagem de pirarucu e em espaços de decisão. Jovens das comunidades permanecem na região, fortalecendo a sustentabilidade local.
Os autores enfatizam que o financiamento deve chegar de fontes públicas e privadas, sem abrir mão de transparência. Campos-Silva, pesquisador do Instituto Juruá, reforça que a participação local é essencial para o futuro da Amazônia e da conservação.
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