- Em agosto de 2024, um incêndio florestal em Acará, Pará, ocorreu em área de ribeira, sem brigada local, água ou aeronaves, sendo combatido principalmente por moradores mobilizados via WhatsApp.
- Mais de 100 vizinhos transportaram água em barris por quase um quilômetro até o fogo, até a chegada de 30 bombeiros de Macapá, que ajudaram com mangueiras e um reservatório improvisado.
- O fogo foi controlado após três dias e três noites de trabalho intenso, e totalmente extinto levou cerca de duas semanas, resultando em mais de sessenta hectares queimados.
- O coordenador de defesa civil, Edson Abreu dos Santos, desenvolveu estratégias de baixo custo com grupos do WhatsApp e apoio de cidades vizinhas, e em 2024 ganhou reconhecimento pelo trabalho.
- A situação levou a investimentos e planos, como brigadas voluntárias, aquisição de equipamentos e criação de políticas de prevenção, mas especialistas alertam para a necessidade de estrutura municipal estável diante de sazonalidade e seca cada vez mais intensa.
ACARÁ, Brasil — Em agosto de 2024, um incêndio florestal atingiu a cidade histórica de Acará, no Pará. Sem brigada de incêndio, caminhões-pipa, drones ou helicópteros, a defesa civil local atuou com recursos limitados para conter as chamas no entorno do riacho Itapecuru.
Edson Abreu dos Santos, 48 anos, coordenador de defesa civil, montou um posto de comando improvisado numa casa flutuante à beira do rio. A partir de lá, usou o WhatsApp para mobilizar moradores, que chegaram em rabetas para buscar água em carotes de madeira e combater o fogo de perto.
Mais de 100 vizinhos formaram uma fila para carregar água por quase um quilômetro, despejando-a sobre as chamas. A operação contou com apoio de 30 bombeiros de Macapá, a mais de 100 km de distância, que trouxeram pulverizadores e uma mangueira conectada a uma linha de irrigação local.
Luta sem infraestrutura
O combate durou três dias e três noites, e levou ainda duas semanas para extinguir o fogo por completo. Ao todo, foram queimados mais de 60 hectares de floresta, segundo levantamento posterior. Santos recorda o episódio como um dos mais desafiadores de sua carreira.
O episódio ocorreu em um contexto de mudanças climáticas na Amazônia, com verões mais secos e temperaturas recordes. Acará fica a 116 km da capital Belém, cidade-sede da COP30, realizada em 2025. A região concentra áreas rurais amplas, com comunidades dependentes de roças e do extrativismo.
Desafios estruturais e legais
Historicamente, a queima de áreas para manejo de roças é comum na região, mas a legislação de 2024 restringe esse manejo e exige medidas de prevenção. Em Acará, a fiscalização é limitada por falta de pessoal, recursos e documentação fundiária, dificultando atribuição de responsabilidades diante de queimadas.
Mesmo com leis, autoridades destacam falhas na atuação prática. Em 2024, apenas quatro multas foram registradas pela secretaria ambiental local, e em 2025 foram aplicadas poucas sanções. A carência de equipamentos e de brigadas impede resposta rápida em incêndios de grande escala.
Avanços e perspectivas
Após o incêndio de 2024, a Prefeitura de Acará autorizou a contratação de oito novos trabalhadores para a coordenação, além de adquirir um veículo e equipamentos de combate a incêndio. Em dezembro, foi inaugurada a primeira brigada voluntária com 30 membros, vinculada à Defesa Civil.
Especialistas apontam a necessidade de estruturar ações em nível municipal, ampliar brigadas frestas e melhorar o monitoramento. Dados de pesquisas mostram que apenas uma fração dos municípios amazônicos possui unidades ativas de brigadas militares de incêndio.
Em 2025, o governo federal destinou recursos do Fundo Amazônia para reforçar as brigadas na região, enquanto o Pará aprovou iniciativas para monitoramento, zonamento de áreas vulneráveis e criação de novas brigadas. A ideia é reduzir vulnerabilidade frente a futuros episódios.
Impactos na comunidade
Acará ainda convive com danos ao sustento local. Proprietários de áreas de manejo, como o açaí, relatam perdas de produção e impactos à saúde dos moradores expostos à fumaça. Em Bom Futuro, comunidades registraram impactos psicológicos e dificuldades para retomar a produção após o fogo.
O trabalho de Santos ganhou reconhecimento com a Medalha de Distinção Civil do Corpo de Bombeiros do Pará. Ele mantém o foco em prevenção e em ampliar a capacitação de moradores para futuras emergências, sem abrir mão de ações imediatas.
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