- A piraíba percorreu centenas a milhares de quilômetros para desovar, segundo estudo com telemetria acústica em quase 100 indivíduos na bacia do rio Araguaia.
- A pesquisa de Lisiane Hahn evidencia, pela primeira vez com clareza, as longas migrações da piraíba (Brachyplatystoma filamentosum), que pode chegar a 200 kg.
- Um relatório global aponta 325 espécies de peixes migratórios de água doce em declínio e que precisam de ação internacional coordenada, com apenas 23 listadas na Convenção CMS.
- Barragens, pesca excessiva e perda de habitat estão interrompendo rotas migratórias, destacando a necessidade de ecossistemas fluviais conectados.
- A adesão de mais países à CMS é vista como essencial, especialmente na região do Mekong, para proteger essas migrações e ampliar planos multilaterais de conservação.
A pesquisa conduzida pela bióloga Lisiane Hahn revela que a piraíba, o maior peixe-gato da América do Sul, realiza longas migrações entre as redes de rios. No Araguaia, no Brasil, drones e sensores mostraram deslocamentos de centenas a milhares de quilômetros para a desova. Os peixes são marcados com transmissores via acústica para mapear os trajetos.
A equipe implantou transmissores em quase 100 piraíbas, algumas com quase 2 metros de comprimento, e monitorou os movimentos por uma malha de receptores ao longo do corso do rio. Os dados fornecem evidência clara de migrações extensas, desmentindo a ideia de que o peixe não se desloca muito.
A pesquisa faz parte do Projeto Peixara, da Universidade Federal de Mato Grosso, e amplia a compreensão sobre uma das espécies mais emblemáticas dos rios da região. Hahn destaca a surpresa ao confirmar trajetos impressionantes para a reprodução da piraíba.
Dados globais sobre peixes migratórios de água doce
Um relatório apresentado na COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) aponta que 325 espécies de peixes migratórios de água doce necessitam de cooperação internacional para proteção. A avaliação indica uma queda estimada de 81% nas populações desde 1970.
Segundo o estudo, os peixes dependem de corredores fluviais conectados que cruzam fronteiras. Barragens, sobrepesca e perda de habitat fragmentam essas rotas, levando ao colapso de diversas populações. A CMS classifica espécies para listas de proteção com critérios de migração transfronteiriça.
A pesquisa aponta que apenas 23 espécies de peixes migratórios de água doce estão listadas pela CMS, a maioria entre os esturjões. Em comparação, mais de mil espécies migratórias estão registradas globalmente, com a maioria sendo aves. A migração envolve principal ente de rios como o Mekong, na Ásia, e bacias andinas.
Desafios e avanços na proteção
Especialistas ressaltam que a gestão de rios ainda é Fragmentada, o que dificulta a proteção de espécies migratórias. Ainda não há adesão plena de países da Bacia do Mekong ao CMS, o que complica ações de amplo alcance. Contudo, há avanços, como planos de ação multiespécies para o catfish migratório na Amazônia.
Em algumas regiões, testemunha de cooperação com comunidades pesqueiras resultou em aumentos de espécies criticamente ameaçadas, como o Mekong gigante. Em contraste, a falta de gestão integrada persiste em grandes sistemas fluviais internacionais.
Avanços da pesquisa brasileira e próximos passos
Hahn ampliará a área de estudo no Araguaia para abranger trechos maiores do rio e entender melhor a extensão das migrações. Além da piraíba, a pesquisadora já acompanhou outras espécies sul-americanas, como o jaú e a pirapitinga, com relatos de deslocamentos significativos.
A equipe pretende coletar dados adicionais para mapear trajetos com maior precisão, contribuindo para a formulação de políticas de conservação mais eficazes na região. A investigação reforça a necessidade de reconhecer rios como sistemas conectados, não compartimentos isolados.
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