- A elevação do nível do mar na África acelerou nas últimas décadas, devido ao aquecimento global e principalmente ao derretimento de calotas e geleiras.
- Entre 1993 e 2023, o nível médio do mar africano subiu cerca de 10,2 cm, com a maior parte do aumento ocorrendo após 2010.
- O estudo aponta que cerca de quatro quintos do aumento se deve à água adicional proveniente do derretimento (derivada de massas de gelo), e apenas cerca de um quinto, à expansão térmica da água.
- Eventos de El Niño contribuíram para picos de elevação em determinados anos, mas o período 2013-2023 apresenta uma base mais alta e sustentada.
- Além disso, a subida do nível do mar na África ocorre junto com subsidência de solos em várias regiões, agravando riscos de inundações e erosão litorânea.
A elevação do nível do mar vem acelerando na África nas últimas décadas, impulsionada pelo aquecimento global e, principalmente, pelo derretimento de geleiras e calotas polares. Um estudo publicado em 15 de dezembro na revista Communications Earth & Environment aponta que o nível médio em todo o continente subiu, em média, quatro vezes mais rápido desde 2010 do que na década de 1990. O aumento está ligado principalmente à adição de água proveniente do derretimento, e não apenas à expansões térmicas.
Segundo Franck Ghomsi, pesquisador pós-doutorante da Universidade de Manitoba e autor principal, o derretimento propaga água para o oceano, com impactos mais intensos no tropo. As consequências incluem inundações costeiras, erosão de áreas marginalizadas, deslocamento de comunidades e intrusão de água salgada em fontes de água potável.
O estudo indica que a elevação média do nível do mar na África entre 1993 e 2023 foi de cerca de 10,2 cm, um valor próximo ao global, mas com tendência mais alarmante. A maior parte do aumento ocorreu após 2010, e o nível chegou a máximos históricos em 2023, ano ligado a eventos de El Niño.
A pesquisa utilizou principalmente dados de altimetria orbital, já que há poucos marégrafos estáveis no continente. A partir dos dados, os autores estimaram que apenas cerca de 20% do aumento derivou da expansão térmica, enquanto 80% decorreu da adição de água, principalmente pela perda de massa de geleiras.
A distribuição do derretimento não é uniforme. Fatores como correntes oceânicas, dobra geográfica e regimes de upwelling na costa africana ajudam a manter parte das águas superficiais mais frias e salinas, reduzindo a contribuição da expansão. Contudo, eventos de El Niño recentes elevaram as temperaturas e contribuíram para picos de nível do mar em períodos específicos.
Fatores locais e impactos
A subida relativa do nível, que leva em conta a subsidência do solo, agrava o problema em várias regiões. Em Lagos, Nigéria, a construção de portos de água profunda intensifica o recuo de margens. Em outras áreas, a recuperação de dados é limitada pela escassez de medições de campo confiáveis.
Especialistas destacam que países do Norte Global, cujas emissões são históricas, impactam fortemente os países africanos. A distribuição desigual de responsabilidades e efeitos reforça a ideia de injustiça climática, segundo os pesquisadores.
O estudo ressalta a necessidade de melhorar a coleta de dados de subsistência do solo e de elevação terrestre para mapear com mais precisão áreas de risco de inundações costeiras. As autoridades e comunidades são chamadas a considerar essas informações no planejamento de infraestrutura e adaptação.
Essas descobertas reforçam previsões anteriores de uma aceleração do aumento do nível do mar na África, ampliando a urgência de ações de mitigação e adaptação. A análise internacional também aponta a importância de reduzir as emissões globais para coibir impactos futuros.
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