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Civilização indígena antiga persiste sob polo de soja na Amazônia

Ocara-Açu, antiga Aldeia Tapajós, permanece pouco lembrada enquanto praça deteriorada convive com o terminal de soja de Santarém

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  • Em Santarém, a Praça Rodrigues dos Santos (Ocara-Açu) abriga a memória das Tupaiu/Tapajós, desde a instalação da missão Nossa Senhora da Conceição por João Betendorf em 1661.
  • A cidade, hoje com cerca de 330 mil habitantes, ganhou o contorno de um polo urbano com o terminal de soja da Cargill instalado desde 2003.
  • Arqueólogos e pesquisadores apontam mais de duzentos sítios arqueológicos na região; há evidências de ocupação humana na Amazônia muito anterior à conquista europeia.
  • A prefeitura tentou construir um centro comercial na praça em 2022, mas houve protestos indígenas e de acadêmicos que frearam a obra para preservar o sítio histórico.
  • Especialistas discutem a demarcação de sítios arqueológicos como monumentos culturais, sugerindo que Ocara-Açu possa um dia ganhar o reconhecimento e a proteção que a região merece.

O centro de Santarém abriga a Praça Rodrigues dos Santos, marcada por desgaste no piso, buracos e acúmulo de lixo. Em meio às árvores, está a estátua de um padre segurando uma Bíblia, com uma placa desgastada que relembra Ocara-Açu, o antigo domínio Tupaiu ou Tapajós.

A placa registra a fundação da missão de Nossa Senhora da Conceição, em 22 de junho de 1661, organizada pelo padre jesuíta João Felipe Betendorf. Hoje, a praça central é pouco reconhecida como parte da memória indígena local.

A cidade, às margens do Tapajós, abrange cerca de 330 mil habitantes. O Porto de Santarém recebe muitos barcos de pesca e o terminal de soja da Cargill, instalado desde 2003, que molda a paisagem urbana ao longo do rio.

Ocara-Açu: memória quase invisível

Não obstante o fluxo de moradores e visitantes, o passado indígena de Santarém é pouco lembrado pelo público. O arqueólogo Claide de Paula Morais aponta que há pouca referência histórica visível na cidade, apesar de sua idade.

Santarém celebra 22 de junho como data de fundação, quando Betendorf iniciou a obra de uma capela. O nome atual da cidade surgiu apenas em 1758, após o crescimento da comunidade, que passou a adotar o topônimo de uma cidade portuguesa.

Reconhecimento arqueológico

Sitting no laboratório de Arqueologia da UFOPA, Morais afirma que o passado da região está quase todo soterrado sob concreto. Ele cita a necessidade de preservar sítios e nomes históricos para manter a memória local.

O Centro Cultural João Fona exibe artefatos pré-coloniais, como facas de pedra e cerâmicas. Contudo, especialistas destacam que os verdadeiros exemplos da cultura de Santarém estão fora da cidade, em museus nacionais e internacionais.

Histórias mais antigas do que se imaginava

Historiadores relatam encontros entre europeus e povos Tapajós desde 1542, com وصول de canoas cerimoniais que culminaram em conflitos. Ao longo dos séculos, doenças, guerras e escravidão devastaram populações locais, mas vestígios arqueológicos reaparecem.

Descobertas recentes, com técnicas de prospecção avançada, sugerem que a ocupação humana na Amazônia é antiga e complexa, desmentindo a ideia de ocupação tardia da região. Pesquisas apontam redes urbanas e centros de produção agrícola antigos.

O papel da modernidade

Pesquisadores defendem a proteção de sítios arqueológicos como monumentos culturais, não apenas pela preservação ambiental. Estudo liderado por Eduardo Neves sugere que até 10 milhões de pessoas podem ter vivido na Amazônia pré-colonial.

Partes de Santarém, como Aldeia e Porto, foram afetadas pela expansão urbana e pela construção do terminal da Cargill, o que gerou debates sobre salvaguarda de vestígios. A empresa nega irregularidades nos levantamentos.

Identidade indígena em Santarém

A presença indígena segue viva, com movimentos de reconhecimento cultural e reivindicações por demarcação, educação e saúde. Em 2022, quase 17 mil moradores declararam descendência indígena, o que representa o maior registro já observado no município.

A mudança histórica corta o centro urbano, mas cidadãos indígenas e não indígenas promovem memoriais, que ajudam a entender a relação entre passado e presente. A discussão sobre o nome da praça ainda é pauta local.

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