{"id":460503,"date":"2026-05-12T16:15:42","date_gmt":"2026-05-12T19:15:42","guid":{"rendered":"https:\/\/staging.portaltela.com\/noticias\/2026\/05\/12\/mulheres-que-sustentam-a-pesca-de-luxo-no-pantanal-brasileiro\/"},"modified":"2026-05-12T16:15:42","modified_gmt":"2026-05-12T19:15:42","slug":"mulheres-que-sustentam-a-pesca-de-luxo-no-pantanal-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/staging.portaltela.com\/cotidiano\/meio-ambiente\/2026\/05\/12\/mulheres-que-sustentam-a-pesca-de-luxo-no-pantanal-brasileiro\/","title":{"rendered":"Mulheres que sustentam a pesca de luxo no Pantanal brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>Roseli Oliveira acorda \u00e0s 3 da manh\u00e3 na Ilha Baguari, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, para iniciar a rotina de recolha de iscas vivas. Com o farol desligado para n\u00e3o espantar os peixes, ela entra na \u00e1gua at\u00e9 a cintura, cercada por jacar\u00e9s, anacondas e arraias. S\u00e3o 12 horas de trabalho pela frente, e o bolso depende do que for capturado.<\/p>\n<p>A vida das catadoras de iscas n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o no Pantanal. Mulheres de comunidades ribeirinhas coletam correntes de isca com redes finas para abastecer a pesca esportiva, o turismo n\u00e1utico e a economia local. O trabalho \u00e9 manual, invis\u00edvel e arriscado, mas crucial para a continuidade de v\u00e1rias atividades econ\u00f4micas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 hist\u00f3rica: em 2002, o pesquisador \u00c1lvaro Banducci verificou a marginaliza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica de pessoas envolvidas nesse setor. Hoje, o cen\u00e1rio mudou em algumas comunidades, com mulheres assumindo a lideran\u00e7a na coleta de iscas e em posi\u00e7\u00f5es sociais, enquanto homens passam a atuar como guias ou gestores de lodges.<\/p>\n<p>Dados oficiais de 2023 mostram que, entre 12.319 pescadores profissionais nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, 5.026 s\u00e3o mulheres, o que representa cerca de 40% do total. A participa\u00e7\u00e3o feminina revela a import\u00e2ncia econ\u00f4mica desse grupo para o Pantanal e para o turismo de pesca.<\/p>\n<p>Entre as catadoras est\u00e1 Zez\u00e9, de 61 anos, que atua na comunidade Porto da Manga, pr\u00f3xima a Corumb\u00e1. Ela trabalha h\u00e1 34 anos na coleta de iscas e relata exposi\u00e7\u00e3o a doen\u00e7as ginecol\u00f3gicas decorrentes da \u00e1gua contaminada. A falta de prote\u00e7\u00e3o, aliada \u00e0 informalidade, aponta para vulnerabilidade do grupo.<\/p>\n<p>Em 2011, uma parceria envolvendo a Ecoa e uma empresa paranaense levou ao desenvolvimento de macac\u00f5es imperme\u00e1veis e botas resistentes para as catadoras. O recurso vem de multas trabalhistas arrecadadas pela Justi\u00e7a do Trabalho, mas a vida \u00fatil \u00e9 de cerca de um ano, e nem todas as coletoras recebem novas pe\u00e7as com regularidade. A prote\u00e7\u00e3o, todavia, reduziu riscos de ferimentos e picadas de animais.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 realizado em grupo, com cada barco acomodando de duas a quatro pessoas. Mesmo em per\u00edodos de abund\u00e2ncia, o grupo enfrenta priva\u00e7\u00f5es financeiras: a renda mensal de uma m\u00e3e trabalhadora e suas quatro filhas fica entre 1.500 e 2.000 reais, abaixo do sal\u00e1rio m\u00ednimo. A aus\u00eancia de contratos formais facilita negocia\u00e7\u00f5es informais com lodges e vendedores locais.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica econ\u00f4mica do Pantanal mostra que a atividade de pesca esportiva cresce rapidamente. Relat\u00f3rios recentes indicam expans\u00e3o de 30% a 40% no estado de Mato Grosso nos \u00faltimos dois anos, com centenas de lodges e turistas pagando valores elevados pela experi\u00eancia. A cadeia de iscas, no entanto, permanece suscet\u00edvel a varia\u00e7\u00f5es sazonais e \u00e0 dist\u00e2ncia entre comunidades e mercados urbanos.<\/p>\n<p>Existe um per\u00edodo de defeso, de novembro a fevereiro, em que a pesca \u00e9 proibida para permitir a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes. O pagamento do seguro-defeso, benef\u00edcio destinado aos pescadores durante esse per\u00edodo, sofre atrasos sob a gest\u00e3o p\u00fablica, com mudan\u00e7as administrativas que transferiram a responsabilidade entre INSS e Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego. Em Mato Grosso, h\u00e1 reclama\u00e7\u00f5es de atraso e dificuldades de pagamento que afetam fam\u00edlias inteiras.<\/p>\n<p>Relatos apresentados por l\u00edderes locais destacam que, mesmo quando o benef\u00edcio \u00e9 pago, o defeso \u00e9 o momento de maior endividamento para as fam\u00edlias, que precisam deslocar-se a Corumb\u00e1 para sacar o dinheiro, com custos de combust\u00edvel e tempo. Enquanto isso, a proibi\u00e7\u00e3o impede a diversifica\u00e7\u00e3o de renda, restringindo atividades legais fora da pesca.<\/p>\n<p>Em Porto Esperan\u00e7a, no Corumb\u00e1, comunidades reconhecem o papel central das mulheres na coleta de iscas para a economia local, que hoje depende fortemente do turismo de pesca. Mesmo sem contratos formais, as catadoras mant\u00eam a m\u00e9dia de produ\u00e7\u00e3o para sustentar a casa, com redes de apoio comunit\u00e1rio e estrat\u00e9gias de coopera\u00e7\u00e3o entre vizinhas para ajustar a oferta conforme a demanda do mercado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<ul>\n<li>Mulheres s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pela coleta de iscas vivas no Pantanal, em Corumb\u00e1 e \u00e1reas vizinhas, sustentando a pesca de luxo na regi\u00e3o.<\/li>\n<li>Quase 40% dos pescadores profissionais nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul s\u00e3o mulheres (5.026 de 12.319).<\/li>\n<li>O trabalho \u00e9 manual, perigoso e remoto: as coletoras enfrentam animais, \u00e1gua suja e jornadas de at\u00e9 12 horas, com renda baixa.<\/li>\n<li>Benef\u00edcio salarial da \u201cseguro-defeso\u201d \u00e9 irregular: transfer\u00eancias passaram a depender do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, com pagamentos ainda pendentes em muitos casos.<\/li>\n<li>A cadeia envolve PPE (roupas de prote\u00e7\u00e3o) financiadas com multas trabalhistas; a situa\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 agravada pela sazonalidade das atividades e pela competi\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o entre comunidades e mercados urbanos.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":460505,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[47,3228],"tags":[2755,1029,6966,916,5422,70],"class_list":["post-460503","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meio-ambiente","category-sociedade","tag-mato-grosso","tag-mato-grosso-do-sul","tag-mulheres","tag-pantanal","tag-pesca","tag-turismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/460503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/comments?post=460503"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/460503\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media\/460505"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media?parent=460503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/categories?post=460503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/tags?post=460503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}