{"id":399280,"date":"2026-03-03T19:46:46","date_gmt":"2026-03-03T22:46:46","guid":{"rendered":"https:\/\/staging.portaltela.com\/noticias\/2026\/03\/03\/projeto-de-digitalizacao-de-manumissao-revela-historia-da-escravidao-no-brasil\/"},"modified":"2026-03-03T19:46:46","modified_gmt":"2026-03-03T22:46:46","slug":"projeto-de-digitalizacao-de-manumissao-revela-historia-da-escravidao-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/staging.portaltela.com\/historia\/2026\/03\/03\/projeto-de-digitalizacao-de-manumissao-revela-historia-da-escravidao-no-brasil\/","title":{"rendered":"Projeto de digitaliza\u00e7\u00e3o de manumiss\u00e3o revela hist\u00f3ria da escravid\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>A pesquisa sobre a manumiss\u00e3o de pessoas escravizadas no estado da Bahia revela a complexidade da escravatura e da emancipa\u00e7\u00e3o no Brasil no s\u00e9culo XIX. O estudo usa volumes de notarial e arquivos estaduais que estavam pouco explorados.<\/p>\n<p>Conduzida por Kristin Mann, historiadora norte-americana, e Urano de Cerqueira Andrade, professor da UFBA, a parceria transformou parte dos documentos em banco de dados acess\u00edvel. Os materiais ficam no APEB, em Salvador.<\/p>\n<p>O projeto come\u00e7ou em 2015, com financiamento do Endangered Archives Programme, da British Library. Ao todo, mais de 300 mil pap\u00e9is foram digitalizados para reduzir manuseio f\u00edsico e preservar o acervo.<\/p>\n<p>O catalogo atual re\u00fane cerca de 22.860 registros de manumiss\u00e3o, com datas de 1800 a 1860. A meta \u00e9 cobrir mais de dois s\u00e9culos de documentos na Bahia, at\u00e9 1888, incluindo registros de 1664.<\/p>\n<p>Os dados variam conforme o documento. Em muitos casos, os escravizados eram obrigados a trabalhar como vendedores de rua ou dom\u00e9sticas, com parte de rendimentos repassada ao antigo propriet\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mais de 60% dos pap\u00e9is n\u00e3o trazem o valor pago pela manumiss\u00e3o, sugerindo que algumas liberta\u00e7\u00f5es ocorreram como presentes. O estudo tamb\u00e9m identifica numerosas manumiss\u00f5es condicionais.<\/p>\n<p>Alguns textos mostram que a liberdade dependia de cumprir obriga\u00e7\u00f5es ou continuar servindo at\u00e9 a morte do antigo senhor. Em outros, surgem condi\u00e7\u00f5es estranhas, como cozinhar para a patroa ao retornar de viagem.<\/p>\n<p>Andrade destaca que a fronteira entre liberdade e escravid\u00e3o era t\u00eanue. Mesmo livres, os indiv\u00edduos podiam perder a liberdade se desobedecessem ou se os patr\u00f5es revogassem a manumiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Algumas cartas revelam la\u00e7os familiares entre patr\u00f5es e libertos, como descri\u00e7\u00f5es de irm\u00e3s, tias ou tias-soberanas associadas \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o. Casos de libertos que voltaram a ser possuidores tamb\u00e9m aparecem.<\/p>\n<p>A pesquisa indica que, ao chegar \u00e0 Bahia, fam\u00edlias eram separadas, mas, no Brasil, algumas unidades familiares conseguiam reconstruir v\u00ednculos. O acervo registra relatos de perdas e reencontros.<\/p>\n<p>H\u00e1 registros em que propriet\u00e1rios liberaram pessoas que, por sua vez, j\u00e1 haviam sido escravizadas. Em diferentes pap\u00e9is, mulheres escravizadas aparecem como libertadoras ou propriet\u00e1rias.<\/p>\n<p>Entre os dados, os termos de ra\u00e7a variam. Criolo ou Criolinha designam natalidade brasileira de origem africana; Africano ou Preto remetem a indiv\u00edduos nascidos na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Mann lembra que, ap\u00f3s 1824, quem nasceu no Brasil e se libertou n\u00e3o tinha plenos direitos civis, ao passo que afrodescendentes nascidos na \u00c1frica enfrentavam maior marginaliza\u00e7\u00e3o. Esses crit\u00e9rios ajudam a entender trajet\u00f3rias p\u00f3s-manumiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O processamento est\u00e1 sendo feito p\u00e1gina a p\u00e1gina, com leitura paleogr\u00e1fica cuidadosa. Futuramente, a dupla pretende padronizar grafias e refer\u00eancias de origem e cor no banco de dados.<\/p>\n<p>A APEB mant\u00e9m uma cole\u00e7\u00e3o valiosa de documentos que v\u00e3o do per\u00edodo colonial ao contempor\u00e2neo, inclusive a\u00e7\u00f5es judiciais de d\u00e9cadas de 1870 em diante, permitindo que escravizados contestassem ilegalidades ou viola\u00e7\u00e3o de acordos.<\/p>\n<p>Com a evolu\u00e7\u00e3o do movimento abolicionista, muitas liberdades passaram a ser reconhecidas nos tribunais, marcando uma transi\u00e7\u00e3o do notariado para o controle jur\u00eddico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<ul>\n<li>Estudo sobre a manumiss\u00e3o de cativos na Bahia, entre 1800 e 1860, usa registros de not\u00e1rios do Arquivo P\u00fablico do Estado da Bahia e universidade para entender escravid\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o no Brasil do s\u00e9culo XIX.<\/li>\n<li>Projeto de digitaliza\u00e7\u00e3o de dois anos, apoiado pelo Endangered Archives Programme (EAP) da British Library, reuniu mais de trezentos mil pap\u00e9is e reduziu o manuseio f\u00edsico dos documentos.<\/li>\n<li>O banco de dados j\u00e1 cont\u00e9m cerca de 22.860 registros de manumiss\u00e3o e pretende abranger mais de dois s\u00e9culos, at\u00e9 1888, com origens que remontam a 1664.<\/li>\n<li>A maioria das cativas exercia fun\u00e7\u00f5es como vendedoras de rua ou dom\u00e9sticas; em mais de sessenta por cento dos pap\u00e9is n\u00e3o h\u00e1 valores de manumiss\u00e3o, sugerindo que algumas foram dadas como presente.<\/li>\n<li>H\u00e1 frequentes manumiss\u00f5es condicionais, mantendo v\u00ednculos de poder entre ex-cativos e antigos donos; mulheres escravizadas tamb\u00e9m aparecem como donas de escravos em mais de 300 casos.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":399287,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[851],"tags":[4178,375,363,3856,737,2088],"class_list":["post-399280","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","tag-a-escravidao","tag-bahia","tag-brasil","tag-documentos","tag-historia","tag-pesquisas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/399280","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/comments?post=399280"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/399280\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media\/399287"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media?parent=399280"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/categories?post=399280"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/tags?post=399280"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}