- O Estreito de Ormuz, se restringido, pode afetar não apenas o petróleo, mas também o fornecimento mundial de fertilizantes nitrogenados, impactando a produção de alimentos.
- A região do Golfo concentra mais de 15 milhões de toneladas métricas de capacidade anual de exportação de ureia, amônia e outros nitrogenados.
- O Catar exporta sekitar 5,5 a 6 milhões de toneladas métricas por ano; o Irã, cerca de 5 milhões; a Arábia Saudita, entre 4 e 5 milhões; Omã e Emirados Árabes Unidos somam mais.
- Quase tudo depende de importações just-in-time, e não existe um estoque estratégico relevante de fertilizantes como existe para o petróleo.
- Interrupções prolongadas podem reduzir rendimentos de safras e elevar preços de alimentos, com impactos globais, inclusive para o Brasil, que importa ureia do Oriente Médio.
Após ataques a infraestrutura iraniana, a atenção dos mercados destiné-se ao petróleo, ao Brent e ao risco de preços elevados. No entanto, a vulnerabilidade se estende a fertilizantes nitrogenados, cuja oferta depende fortemente do Estreito de Ormuz.
Se o tráfego no estreito for restrito, o impacto não será apenas sobre combustíveis. A produção global de alimentos pode sofrer, pois o Golfo é grande fornecedor de fertilizantes nitrogenados, base para rendimentos agrícolas modernos.
Fertilizante transforma gás natural em alimento para plantas. O processo Haber-Bosch converte metano em amônia, que vira ureia e outros nitrogenados. Metade da produção agrícola depende do nitrogênio sintético.
Globalmente, cerca de 180 milhões de toneladas métricas de fertilizantes nitrogenados são consumidas por ano. Desse total, 55 a 60 milhões de toneladas circulam no comércio marítimo.
O Oriente Médio responde por 40% a 50% desse volume, e quase todas as exportações passam pelo Estreito de Ormuz. O bloqueio ou redução de tráfego eleva a vulnerabilidade da cadeia alimentar.
O Golfo concentra mais de 15 milhões de toneladas de capacidade anual de exportação de ureia, amônia e nitrogenados. Exposição aumenta quando se considera amônia e derivados.
Ao contrário do petróleo, não há estoque estratégico relevante de fertilizante. A reserva estratégica americana de petróleo não tem equivalente para nitrogênio.
O modelo just-in-time domina o comércio de fertilizantes, com picos sazonais de demanda. Interrupções geopolíticas podem comprometer safras sem que haja estoque suficiente.
Por que o momento é crítico
A agricultura depende de ciclos de plantio: no Hemisfério Norte, a adubação ocorre antes da primavera; no Sul, entre setembro e novembro. Atrasos logísticos elevam custos e reduzem rendimentos.
Caso ocorram atrasos, agricultores podem reduzir aplicação de nitrogênio, trocar culturas ou arcar com custos maiores. Mudanças de manejo afetam milho, trigo e arroz, consequências globais.
A experiência de 2022 mostrou sensibilidade a preços de fertilizantes, com quedas de rendimento em algumas regiões. O episódio revelou vulnerabilidade de cadeias alimentares.
Substituir 10 a 20 milhões de t/ano de capacidade de exportação do Golfo não é simples. Construção de novas plantas leva anos; a oferta adicional não surge rapidamente.
Impactos e observação mundial
A Índia depende de GNL do Catar para ureia; interrupções no gás pressionariam a produção de fertilizantes domésticos durante plantios. O Brasil importa ureia do Oriente Médio, sustentando soja e milho.
Nos EUA, parte das importações de ureia passa por Ormuz. Mesmo com capacidade de produção interna, não há resposta rápida para substituir importações interrompidas.
Não se trata apenas de uma vulnerabilidade regional. Trata-se de um risco estruturado à segurança alimentar global, com efeitos que se propagam por mercados de commodities, ração e preços dos alimentos.
O canal de transmissão é menos visível, porém decisivo: pequenas oscilações no fornecimento de nitrogênio podem gerar impactos significativos de rendimentos meses depois, repercutindo em custos e acessibilidade de alimentos básicos.
A situação reforça a relação entre segurança energética e segurança alimentar. Um ponto de estrangulamento em Ormuz pode alterar não apenas o petróleo, mas a disponibilidade de fertilizantes nitrogenados essenciais.
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